Educação e Desenvolvimento Econômico



Educação e Desenvolvimento Econômico

Pedro Sisnando Leite*

As Lições da Historia.

Poucos  assuntos são mais importantes do que o papel da educação na sociedade moderna. No século passado, a educação juntamente com um bom governo eram os temas de qualquer discussão sobre os requisitos básicos do progresso econômico.  Numa sociedade justa, além disso, a educação presta dois serviços vitais. Um é permitir às pessoas se autogovernarem  e a outra é a melhorias das condições de vida pelo crescimento da eficiência  da força de trabalho. A longa experiência da UNESCO  sobre o estudo da educação nos países subdesenvolvidos é de que a educação de qualidade  é essencial  para o desenvolvimento sustentável ( Philippe Aghion, 1999), porque  ela  incrementa a capacidade da população em obter  uma visão para a realidade de uma nova sociedade.

A literatura sobre o assunto  aponta que a educação não promove somente a especialização profissional da mão de obra, mas também a motivação, justificação e suporte social para utilizá-la. A comunidade internacional  acredita,  particularmente, que necessitamos  de nos fortalecer através  da educação quanto aos valores comportamentais e estilos de  vida para um futuro sustentável. Há um mito de que a quantidade deve vir primeira do que a qualidade, mas isto é um equívoco. A experiência mundial nas últimas décadas mostra que ambas devem ocorrer simultaneamente. Exemplo negativo disso é o que está ocorrendo no Nordeste do Brasil, onde 97% das crianças de 7-14 anos estão na Escola, mas desistências, repetências e abandono das salas de aula são assustadores. Além de o aprendizado ser muito questionado.

No Brasil, embora a educação tenha melhorado nos últimos 15 anos, o ritmo do avança é tão lento que continua perdendo a corrida educacional até para os países mais atrasados da América do Sul. Essa é uma conclusão que pode ser observado de indicadores sociais de 2010, que o IBGE divulgou recentemente.  Devido à má qualidade do ensino básico no Nordeste, os estudantes desse nível de ensino (fundamental e médio) concluem seus cursos com avaliação insatisfatória, principalmente em matemática, ciências naturais e português. Há levantamentos que identificou alunos da 3ª série do ensino fundamental público sem saberem ler e escrever e muitos chegando ao final do curso como analfabetos funcionais.

Neste contexto, a educação de modo geral, e de qualidade em particular, torna-se uma necessidade essencial para a sociedade cearense que pretende incorporar-se a esse processo de desenvolvimento econômico sem miséria.   A instrução e a capacitação para o trabalho e para o exercício da cidadania é um direito da pessoa humana. É o que preceitua, aliás, os organismos internacionais das Nações Unidas e a própria Constituição brasileira. Sem uma adequada educação do povo, cria-se uma trava ao progresso econômico, social e político de qualquer país ou região. Para um desenvolvimento mais sustentável e equitativo, portanto, o Ceará precisa de um crescimento mais rápido de sua educação de qualidade, com maior inclusão e acesso aos pobres. A educação, além disso, é essencial para o aumento da produtividade que é uma das soluções para o aumento da renda per capita. O Ceará de amanhã precisa de maior prioridade nas políticas educativas atuais, que permitam um desenvolvimento mais humano e equilibrado.

Como bem definiu Dom Michael Miller, a educação de qualidade deve transmitir valores e cultura, promoção da coesão social, e crescimento da personalidade do estudante em toda sua dimensão. “Uma educação autêntica – afirma ele – deveria ensinar às novas gerações o respeito pelas outras culturas e promover o reconhecimento da riqueza de sua história e de seus valores“. Ou seja, as políticas educacionais deveriam buscar o fim fundamental da educação que é o desenvolvimento integral da personalidade em toda sua dimensão, tanto no âmbito do conhecimento como dos valores da solidariedade.    A instituição educacional não pode ser apenas o lugar para o aprendizado de teorias, mas de sentimentos de responsabilidade, da diferenciação do certo e errado, do falso-verdadeiro. Se um país tem grande parte de seu povo formado de pessoas semi-analfabetas, os investimentos podem ser inúteis, por falta de gente habilitada para as atividades produtivas.

Alguns Exemplos de Sucesso na Educação

Exemplo clássico de desenvolvimento apoiado na educação são os casos da Alemanha e do Japão.  Ao término da Segundo Guerra Mundial, esses países estavam destruídos materialmente. Parte das pessoas qualificadas e dos conhecimentos gerados, no entanto, estava vivo. Com planos econômicos e investimentos adequados foi possível a essas nações se tornarem exemplos de sucesso e de prosperidade. Outro caso mais recente é o da República da Coréia. O país era mais pobre do que o Brasil, depois de enfrentar duas guerras. A estratégia de desenvolvimento teve como eixo a valorização da educação, através da aplicação de recursos para essa finalidade. A Finlândia, por sua vez, ocupa atualmente o 1º lugar no ranking da qualidade de ensino em âmbito mundial.

Em contrapartida, segundo o mesmo estudo, o Brasil está posicionado nas últimas colocações desse confronto. É quase inacreditável que o nosso país esteja no mesmo grupo de nações tradicionalmente subdesenvolvidas como a Tunísia e a Indonésia A receita da boa educação finlandesa tem sido a formação de seus professores, os quais precisam ter título de mestrado. No Brasil, 9% dos professores de ensino médio não têm nível superior. A carreira de professor do ensino básico é considerada entre as menos atrativas no país de modo geral. De fato, as medidas de valorização do magistério preconizadas no Fundo de Desenvolvimento de Educação Básica (Fundeb), nunca saíram do papel. Por outro lado, 38% dos estudantes de ensino médio estão matriculados em escolas sem bibliotecas. Estas referências são para ilustrar quanto distante estão às intenções e planos do setor público para a educação e o que realmente é executado e avaliado.

Mesmo quando se faz alguma aferição do aprendizado, fica a dúvida sobre o que está sendo medido. Porque o desempenho pode até ser satisfatório em alguns casos, mas fica a indagação sobre o que foi realmente ensinado. Ou seja, o estudante pode ter assimilado o que foi ministrado, mas os conteúdos transmitidos estão inadequados às necessidades e propósitos de uma formação educacional correta. Na sociedade do conhecimento a que me referi antes, as pessoas precisam aprender a aprender para que o conhecimento dure toda a vida.

No caso da Finlândia, o primeiro remédio para uma boa educação é o currículo amplo e bem estruturado, como é comum a muitos outros países desenvolvidos. A grade curricular é flexível e organizada conjuntamente com os professores, administradores e pais, e representantes dos alunos. Vale lembrar, que no início da década de 70, a Finlândia era parecida com o Brasil, ou com o Nordeste. A metade da população vivia no quadro rural e devido à má qualidade da escola pública as crianças das famílias abastadas foram transferidas para as instituições privadas. Para corrigir essas distorções, numa segunda fase da reforma do ensino na Finlândia, foi adotada em 1985 a política de  descentralização do sistema de ensino.

Segundo essa sistemática, o professor passou a ter um papel fundamental, com a responsabilidade principal pelo desempenho dos alunos. É ele quem avalia os estudantes, identifica os problemas, bem como indica as possíveis soluções e avalia os resultados. Há de se reconhecer que a Finlândia é um país de características próprias, mas sua experiência pode ser uma referência para as mudanças que necessitam ser adotadas para melhorar a qualidade do ensino brasileiro.  O fato relevante a observar é que os estudos mostram que a educação de qualidade desse país foi fundamental  para o seu desenvolvimento econômico Na verdade, o sistema educacional é um dos maiores orgulhos dos finlandeses.

O economista Cláudio de Moura Castro, especialista em questões educacionais, com base em seus estudos, afirma que o atraso do Brasil em relação aos países desenvolvidos é de mais de 100 anos. De fato, nas pesquisas da Unesco, a colocação do Brasil é assustadora com relação a outros países. Um em cada três brasileiros, entre 15 e 64 anos, é classificado como analfabeto funcional. Outro agravante revela que 62% dos brasileiros alfabetizados nunca lêem livros e outros que fazem uso dessa prática têm dificuldade de compreensão e assimilação. No caso do Ensino Médio, 38% dos estudantes estão matriculados em escolas sem bibliotecas, e 87% estudam em colégios sem acesso a computadores conectados à internet.

O Programa Internacional de Avaliação de Estudantes (PISA) aplicado em 57 países,  considera como aspectos indicativos a leitura, matemática e ciências. Nas últimas pesquisas, o Brasil tem aparecido nas últimas posições, considerando a situação da 7ª e 8ª séries do Ensino Fundamental. Em tais condições, as pessoas não conseguem se desenvolver pessoal e profissionalmente. O economista Eduardo Giannette da Fonseca e o irlandês Dam O’Briem, especialistas em nações emergentes, afirmam: A mentalidade dominante nos países desenvolvidos sempre foi perseguir resultados na escola.

Livro: A Trava do Desenvolvimento

Com o objetivo de diagnosticar os recursos humanos do Estado Ceará e o desempenho das políticas e programas educacionais, com foco no ensino fundamental público, elaborei um estudo sobre essa questão fundamental do desenvolvimento  econômico no Ceará referente ao período de 1985 a 2006. O meu interesse pela educação está relacionado com a disciplina “ Teoria do Desenvolvimento Econômico”que lecionei durante vinte anos nos cursos de pós-graduação da Universidade Federal do Ceará. O exercício da função de Pró-Reitor de Planejamento da UFC, em dois reitorados, proporcionou-me  condições para investigações  nesse campo de formação de recursos humanos. Além das questões pertinentes ao ensino universitário e de ensino médio, meu grande interesse acadêmico esteve voltado para o ensino fundamental público desde que o foco dos meus estudos esteve  voltado para os problemas da pobreza e da desigualdade, onde essa esfera de ensino é cruciante no Nordeste.

Numa primeira fase, esse livro foi divulgado em formato virtual pela Editora eletrônica Vívali, de São Paulo. Com a auspiciosa audiência eletrônica em todo o Brasil, resolvi fazer uma edição gráfica em papel, seguida de uma 2ª edição revisada também em papel, que se encontra nas principais livrarias da Cidade como Siciliano ( Del Paseo), OBOÉ, Livraria Acadêmica, Livros Técnicos e outras. Além da opção da Editora Eletrônica Vivali (www.vivali.com.br/newsletter/psisnando), doravante esse livro pode ser acessado em download gratuito no site www.econometrix.com.br

Como se pode verificar na avaliação de todos os aspectos relatados neste livro, entretanto, o Ceará tem conseguido alcançar avanços no campo educacional, especialmente na quantidade das matrículas, infraestruturas e organização escolar. Mas esses resultados são conflitantes quando se considera o problema da qualidade do ensino ministrado nos vários níveis.

Agora, mais do que nunca, o lema “educação de qualidade de todos para todos” deve ser a palavra de ordem para uma nova sociedade mais educada e mais próspera, com menos desigualdade e pobreza.    Enfim, o livro “ A Trava do Desenvolvimento Econômico” procura refletir sobre o princípio universal de que “ A educação é um dever da família e do Estado e tem por finalidade o pleno desenvolvimento do educando, seu prepara para o exercício da cidadania e sua qualificação para o trabalho”

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    Pedro Sisnando


    Economista com pós-graduação em desenvolvimento econômico e planejamento regional em Israel. Atualmente é vice-presidente do Instituto do Ceará (Histórico,  Gegráfico e Antropológico) e da Academia de Ciências Sociais do Ceará, bem com sócio fundador da Academia Cearense de Ciências. É professor titular  (aposentado) do programa de mestrado (CAEN) da Universidade Federal do Ceará, onde foi também Pró-Reitor de Planejamento. No Banco do Nordeste, ocupou o cargo de economista  e Chefe da Divisão de Estudos Agrícolas do Escritório Técnico de Estudos Econômicos(ETENE). No período de 1995-2002, exerceu a função de Secretário de Estado de Desenvolvimento Rural do Ceará. Publicou cerca de 40 livros em sua área de especialização e escreveu muitos artigos para jornais e revistas.