As Razões da Petrobras



José Cursino Raposo Moreira

Economista e Conselheiro do CORECON- Ma.

       

        “A ação do governo nas últimas semanas mostra que não há razão para desencanto e esmorecimento. Em primeiro lugar, por exemplo, a firme disposição da presidente da Petrobras de ‘por ordem na casa’, dando maior transparência aos problemas responsáveis pela dramática perda de seu valor, que desagrada aos seus acionistas privados e espalha pessimismo, além de aumentar o custo de seu financiamento”. Esta análise do EX-MINISTRO Delfim Netto e atual guru econômico do Partido dos Trabalhadores desde o Governo Lula, apresentada em seu artigo semanal da Folha de São Paulo do dia 11 de julho deste ano, resume de forma bastante objetiva e pertinente as razões das decisões recentemente tomadas pela petroleira no seu Plano de Negócios para o período 2012-2016.

       

        A perda de valor das ações da Petrobras nos últimos dois anos, de fato, foi muito grande, levando a sua cotação de mercado para a faixa de 30% do seu valor patrimonial, o que revela o juízo dos investidores sobre o processo de gestão da empresa. Afinal, é bastante recente o frenético processo de sua capitalização depois da descoberta do pré-sal, assim como o são também os grandes problemas derivados da associação com a petroleira estatal venezuelana para a construção de uma refinaria no município pernambucano de Abreu e Lima, nas proximidades de Recife. Além disso, durante todo o mandato do Presidente Lula foram muitas as denuncias de “aparelhamento” da companhia, processo segundo o qual cargos de características altamente técnicas foram preenchidos por membros do partido do governo, desprovidos da necessária qualificação profissional para ocupá-los, o que trouxe instabilidade para o funcionamento normal da companhia e fragilizou sua imagem junto a acionistas e demais integrantes do mercado.   

       

       O aumento do custo do seu financiamento se apresentaria, nestas circunstâncias, como natural consequência do dito acima e refletiria o desagrado e pessimismo dos seus acionistas, conforme assinala Delfim. A partir de tal situação, a empresa necessariamente enfrentaria dificuldades para levar adiante o programa de investimentos desenhado na gestão Lula-Gabriele, situação que o novo Plano de Negócios busca corrigir. Veja-se, por exemplo, o comunicado da empresa, de 14 de junho, sobre o Plano de Negócios, em que apresenta os seus fundamentos, enfatizando “o foco no atendimento e perfeito alinhamento das metas físicas e financeiras de cada projeto” e “o desenvolvimento dos negócios da empresa com indicadores financeiros sólidos”. Ainda explica os problemas contemporâneos da Petrobras a decisão de elevação do conteúdo de origem nacional nas compras da empresa, visto que levou a atrasos e problemas na realização de vários de seus projetos, apesar dos méritos dessa medida favorável aos fornecedores nacionais. Em resumo: a Petrobras busca neste momento resgatar os procedimentos puramente empresariais de sua atuação e compatíveis com sua dimensão e caráter multinacional, integrante de setor de alta complexidade operacional e financeira, para continuar a ser um dos maiores agentes do desenvolvimento brasileiro.

      

       No Maranhão, o novo cenário criou preocupações e motivou posicionamentos de parte do governo, da iniciativa privada e da imprensa. No final das contas, a questão se centralizou na dúvida quanto à implantação ou não da refinaria projetada para ser construída no município de Bacabeira. Quanto a isso, o Plano de Negócios é suficientemente transparente ao afirmar que a análise do seu portfólio não resultou em cancelamento de projetos. Contudo, seguindo a linha de recuperação de critérios empresarias na companhia, passou a classificá-los em dois grupos: em implantação e em avaliação, significando que estes, antes de terem seus investimentos efetivamente contratados, precisam confirmar sua viabilidade técnica-econômica. A refinaria de Bacabeira está enquadrada nesta classificação, mas sua viabilidade é evidente, tendo sido afetado, contudo, pelos novos critérios de maior rigor empresarial reimplantados na Petrobras. Daí, o adiamento de seu cronograma de implantação.

 

       Ao lado de frustrações de expectativas imediatas e até de perdas para empreendedores e poder público maranhenses, que tomaram decisões ante o cenário anterior de implantação da refinaria, o seu adiamento proporciona oportunidade de melhor negociação e preparação por parte do estado para esta nova realidade. No que diz respeito à Petrobras, trata-se de medida responsável resgatar padrões empresariais corretos nas suas decisões daqui para frente.

 

                                         cursinomoreira@elo.com.br



    José Cursino


    Economista. Mestre em Economia Regional e Urbana – UFMG. Especializado em Consultoria Industrial de Pequenas e Médias Empresas – UFPB / SUDENE. Analista Técnico do SEBRAE-MA. Vice-Presidente do Conselho Regional de Economia do Maranhão, Professor Adjunto no Departamento de Economia da UFMA. Ex-Secretário Adjunto de Planejamento na Prefeitura de São Luís e no Governo do Estado e Ex-Assessor da Secretaria de Estado de Assuntos Estratégicos e palestrante de abrangência nacional.