O que devemos conhecer da Crise Mundial?



Introdução

 

O mundo moderno encontra-se em profunda crise. Muitos especialistas acreditam que na história da humanidade dos últimos cem anos não se tem registro de situação tão perturbadora como está ocorrendo nos dias de hoje. Crise econômica, crise política, crise moral, crise religiosa, de autoridade, da família e das instituições. Exemplo disso é o que estamos assistindo no momento no Brasil, como os casos dos chamados mensalão,  Cachoeira e tantas outras aberrações. Também outros países tradicionalmente exemplos de seriedade e economias estáveis, debatem-se em verdadeira turbulência social e política.

 

O pior dessa situação é que não vemos claramente uma tendência de melhoria dessa crise. Até mesmo observo que o Brasil que parecia está blindado dos efeitos de natureza econômica começa a ser afetado perigosamente. Nos últimos dois meses (13/08), cerca de US$ 95 bilhões de investimentos no Brasil foram suspensos. Segundo os jornais indicam, tal interrupção “reflete a cautela das companhias diante da desaceleração da economia, que reduz a demanda externa por seus produtos”. Mesmos empresas multinacionais, como a Petrobrás e a Vale, estão revisando seus planos de investimentos. A dívida interna atual chegou a R$ 1,9 trilhão no primeiro semestre deste ano, cuja remuneração de juros alcança cifras astronômicas.

 

Por sua vez, as famílias brasileiras estão comprometendo 22% de sua renda com pagamentos de dívidas de compras de produtos supérfluos, estimulados pelo próprio governo, que equivocadamente busca elevar o crescimento da renda nacional pelas despesas e não pelo investimento como determina a ciência econômica. Pesquisas divulgadas esta semana (15/8) pelo Banco Central do Brasil registram que o crescimento do Produto Interno Bruto, estimado para o ano de 2011 em 4,5%, apenas chegou a 1,8%. Em termos per capita, tal desempenho foi praticamente zero.

 

Esses comentários têm objetivo de evidenciar que a situação da economia brasileira tem problemas e não é o sucesso que os meios de comunicação oficial fazem crer. Aliás, depois que a bolha imobiliária explodiu nos Estados Unidos muitas críticas foram formuladas, acusando os economistas por não haverem previsto tal desastre. Na verdade, o que ocorreu foi que os analistas financeiros se acomodaram com a prosperidade e temiam que ocorresse um arrefecimento das tendências favoráveis da economia com noticias alarmistas. Depois que tudo ocorreu, praticamente todos dizem que sabiam desde 2007-2008 o que ia acontecer. Neste particular, não posso deixar de falar sobre o renomado economista Alan Grenspan, presidente do poderoso Federal Reserve Bank (Banco Central dos Estados Unidos). Até as vésperas da crise americana ele dizia que tudo estava bem.  

 

Agora o seu discurso é de que essa crise financeira revelou uma “ lacuna” na ideologia capitalista na qual sempre acreditou. Mas ele justifica dizendo que “o mercado de crédito vive um `tsunami` o qual se vê uma vez a cada século”. Grenspan sobreviveu a quatro presidentes dos Estados Unidos e foi considerado o salvador da economia mundial, ao reagir rapidamente ao “ crash” da bolsa de outubro de 1987 e à crise financeira asiática. O fato é que estamos vivendo a “exuberância irracional” dos mercados e temos de enfrentá-la como uma oportunidade e não como um desastre irreparável, propõem os economistas keynesianos.

 

Do outro lado do mundo, na Europa, de há muito os economistas sabiam que a crise financeira americana resultaria, inevitavelmente, em pesadas consequências na economia do euro. Quanto ao Brasil, o discurso oficial era de que a nossa economia era blindada a choques externos. Mas o tempo mostrou que a crise existe e está se manifestando em muitos setores e atividades, ao tempo em que programas estão sendo lançados pela Presidenta Dilma desordenados e de resultados frustrantes.

 

O Brasil esta repetindo o mesmo erro que a União Europeia cometeu. Ou seja, os governos dessa comunidade demoraram até que chegassem a um consenso quanto às medidas a adotar. Só no final de 2008 houve um acordo sobre essas ações, que foram implementadas no final de 2009 e 2010, adiando, assim, estancar a espiral descendente da crise. Mesmo a China que vinha obtendo uma taxa média de crescimento na última década de 11%, baixou para 7%, em 2011 . Motivo: estagnação da economia europeia e do fraco desempenho da economia americana.

 

Pelo indicadores que estão sendo revelados, ultimamente, com a sucessão de greves em todos os setores da sociedade e com a influência dos favorecimentos eleitoreiros, certamente o Brasil vai enfrentar uma fase de muitas dificuldades e provável estagnação.

 

A Revolução das Ideias no Mundo 

 

Em tal ambiente, nem todos percebem que estarmos vivendo uma época de desordem e revolução de ideias. Os sistemas econômicos perdem credibilidade e ouvimos governantes reconhecerem que erraram em suas políticas e estratégias de desenvolvimento econômico. Muitos estão confusos e sem rumo.

 

Na realidade, estamos experimentando várias revoluções simultâneas. Mas todas estão influenciando nosso modo de vida, nossa maneira de ver as coisas. Tal é a interdependência das causas desses fenômenos que se torna e provoca uma desordem na racionalidade do comportamento político, como diz a renomada economista britânica Barbara Ward ( Nações ricas e a libertação dos subdesenvolvidos, 1966).

 

Por decorrência do modo em que ocorrem essas revoluções, o mundo moderno é dominado por um enigma complexo e terrível. Uma parte da humanidade passou pela revolução do crescimento econômico e evoluiu para a riqueza superabundante. Mas a maioria das nações ainda terá de passar por essa etapa para avançarem econômica e socialmente. E assim, o abismo entre ricos e pobres continua em desordem, enquanto o velho mundo hegemônico agora está em crise.

 

O desafio que os países em desenvolvimento terão que considerar nesse mundo de incertezas é a revolução tecnológica que se revitaliza continuamente ao longo da história e que está ao alcance de todos. Será através desse instrumento que os países retardatários como o Brasil terão possibilidades de mudanças materiais para um mundo melhor para todos. De fato, essa força mudancista se manifesta em todo o mundo, especialmente nos mercados globais e nos emergentes como China e países asiáticos.  

 

Em consequência disso, há necessidade de que se faça no Brasil uma avaliação da etapa passado do nosso desenvolvimento e uma reflexão sobre as novas situações que advirão no futuro. Temos de perguntar que futuro nos espera e procurar agir com determinação no sentido de ser organizado um movimento reformador feito da aliança de todos as classes que são vítimas da crise que se abate sobre o Brasil.

 

É evidente, diante disso, que precisamos de estratégias globais que respondam as novas realidades do mundo atual. Basta citar o que disse recentemente no jornal  “Folha de Pernambuco, 30-07” o deputado federal Ariosto Holanda: “O atual modelo de crescimento que se baseia em valores materiais destrói a dignidade da pessoa humana. A sociedade brasileira encontra-se abalada por uma crise profunda, acorrentada pela destruição dos valores éticos e morais”. 

 

O Desenvolvimento Brasileiro em Pauta

 

Na verdade, é preciso levar em conta que o processo de desenvolvimento é complexo e envolve muitos fatores intangíveis, tais como padrões culturais e valores sociais, além de infraestrura. Esse fenômeno apresenta dimensões políticas e humanas, assim como elementos econômicos. Depende também de fatores externos incontroláveis como de forças internas mais suscetíveis de ordenamento, mas dependente de ideologias políticas.

 

O Desenvolvimento do Brasil tem sido limitado por obstáculos determinados por características de seu meio físico, como é a grande região semiárida do Nordeste e as dificuldades de colonização da Amazônia. Em contrapartida, outras regiões do Sul, Sudeste e Centro-Oeste e fatores físicos valiosos têm ajudado o País a levar a bom termo suas aspirações de desenvolvimento econômico. Na verdade o Brasil é o quarto maior País do mundo, com oito milhões de quilômetros quadrados, correspondendo a quase 50% da América do Sul. Proximamente terá 200 milhões de habitantes e, portanto, um grande mercado interno.

 

Mesmo assim, o professor Stefan Robock, no seu livro sobre “O Brasil em Debates”, destaca que, diferentemente dos Estados Unidos, o País não dispõe da Costa do Pacífico onde existem grandes mercados para exportações.

 

Outra deficiência grave lembrada pelo professor Robock é que o Brasil durante séculos deixou de atribuir grau elevado de prioridade ao investimento em seus recursos humanos, mas poucos países do mundo conseguiram um grau tão notável de unidade cultural e religiosa.

 

Esses comentários visam motivar o leitor a fazer uma reflexão sobre as razões porque o Brasil precisa formular um planejamento de modo a ter um mapeamento dos problemas, prioridades, estratégias, necessidade de recursos e referenciais para acompanhamento de modo que as ações não percam as suas verdadeiras necessidades. Como os riscos de corrupção, e fraudes nos investimentos públicos.

 

Diante de uma crise como a em curso no mundo e no Brasil, o Governo e as autoridades monetárias precisam estar atentas aos problemas de estabilidade monetária, dívida interna e externa, sistema cambial, taxas de juros, e principalmente ao desempenho da economia em todos os seus aspectos. São questões ligadas às políticas e a gestão do setor público. O setor privado precisa também de apoio e garantias democráticas.

 

O que desejo destacar, entretanto, é que no momento atual o maior problema do Brasil diz respeito ao elevado nível de pessoas abaixo da linha de pobreza. Como afirmou o Papa João Paulo II “onde há homens condenados a viver na miséria, violam-se os direitos humanos”. Aliás, Bento XVI, no dia internacional para a Erradicação da Pobreza, convidou todas as pessoas de boa vontade a “rejeitar a fatalidade da miséria”, e conclamou para que seja dada particular atenção às pessoas e famílias mais desfavorecidas e aos mais frágeis da sociedade”.

 

É no Nordeste do Brasil onde se encontra a maior parte dos pobres do Brasil, razão porque o Governo Federal deve atribuir uma grande prioridade ao desenvolvimento regional, onde vivem mais de 50 milhões de brasileiros, com praticamente a metade nas condições de pobreza e miséria absoluta.  Ao mesmo tempo, é necessário destacar que o Nordeste não é um vazio geográfico sem potencial produtivo, pois são muitos os recursos naturais nos vários Estados da Região como a Bahia, Maranhão e Piauí, e um vasto litoral húmido, solos férteis nas serras e nos vales das demais unidades federativas.

 

O parque industrial da Região é imenso, com dezenas de universidades públicas e privadas com milhares de doutores e cientistas disponíveis para realizarem proezas de modernização e desenvolvimento econômico. Apenas falta decisão política e planejamento adequado e consistente. O Brasil com o Nordeste pobre jamais será desenvolvido, como disse o ex-ministro da Secretaria de Assuntos Estratégicos, Prof. Roberto Mangabeira Unger.

 

Por isso, acredito que a nossa função como cidadãos conscientes é desenvolver alternativas às políticas inadequadas existentes, mantê-las vivas e disponíveis até que “politicamente se tornem inevitável”, como dizia o economista Milton Friedman (1962).

 

Na verdade, a economia existe para a pessoa e para o bem comum. Não se deve ser escravo dos bens materiais e depositar neles a sua esperança.

 

Os problemas econômicos e sociais se confundem com os direitos humanos e suas exigências vitais como trabalho, salários condignos, comida, saúde, educação e habitação. Assim, a questão fundamental da crise econômica não é financeira, mas o uso que se faz do dinheiro. Por falta desse entendimento, a economia desumanizou-se e tornou-se injusta em muitos países que têm o lucro e o poder como sua única finalidade, como parece ocorrer no Brasil.

 

Conclusão

 

O objetivo central e permanente do sistema econômico deve ser oferecer às pessoas renda para si e suas famílias e garantia de condições para o auto-desenvolvimento.  Um novo conceito de desenvolvimento deve contemplar a erradicação da pobreza e das desigualdades extremas entre regiões, estados e classes sociais. Ou seja, adotar políticas mais equitativas e justas, de modo que o dinheiro público seja aplicado em favor do povo e não drenado pelos canais da corrupção, do mau uso em programas que favorecem apadrinhados políticos e a “nomenclatura” no poder.  Por fim, o Governo precisa adotar ações eficazes para preservar o meio ambiente de modo a mantê-lo ecologicamente equilibrado para uma melhor qualidade de vida da sociedade do presente e do futuro.

 

Esse é o verdadeiro desenvolvimento econômico, que tem poder sobre todas as modalidades de crises, e que a população certamente se sacrificará para o seu alcance .



    Pedro Sisnando


    Economista com pós-graduação em desenvolvimento econômico e planejamento regional em Israel. Atualmente é vice-presidente do Instituto do Ceará (Histórico,  Gegráfico e Antropológico) e da Academia de Ciências Sociais do Ceará, bem com sócio fundador da Academia Cearense de Ciências. É professor titular  (aposentado) do programa de mestrado (CAEN) da Universidade Federal do Ceará, onde foi também Pró-Reitor de Planejamento. No Banco do Nordeste, ocupou o cargo de economista  e Chefe da Divisão de Estudos Agrícolas do Escritório Técnico de Estudos Econômicos(ETENE). No período de 1995-2002, exerceu a função de Secretário de Estado de Desenvolvimento Rural do Ceará. Publicou cerca de 40 livros em sua área de especialização e escreveu muitos artigos para jornais e revistas.