Economia Monetária Internacional - Crise bancária e crise cambial?



PEDRO JORGE RAMOS VIANNA

Professor Titular do DTE (UFC). Aposentado

 

Neste começo de ano, alguns fenômenos econômicos (monetários e cambiais) estão acontecendo no mundo que merecem ser analisados para que fatos desconfortáveis não nos peguem desprevenidos, como aconteceu com a crise de 2008.

 

A primeira visão que devemos ter é sobre o comportamento dos principais bancos internacionais.

 

Ao que tudo indica a grande maioria dessas instituições está empenhada em uma política de reestruturação de suas organizações, todas voltadas para a baixa de custos.

 

Assim, temos, por exemplo:

 

a) O Inglês Barclays anuncia uma política de desmobilização de 4.000 empregados;

 

b) O Americano Citigroup anuncia que irá desmobilizar 11.000 integrantes de sua força de trabalho;

 

c) O Francês Société Générale, por seu turno promete despedir 2.500 funcionários; e

 

d) O Holandês ING, 2.400 colaboradores.

 

Será isso sintomático de que há algo no ar que não percebemos? Por que exatamente os maiores bancos de quatro dos mais desenvolvidos países do mundo adotam, justamente no mesmo momento, tal política?

 

Por outro lado, dois fenômenos que vão de encontro ao comportamento dos bancos acima citados, estão ocorrendo: o primeiro é o fato de que há um excesso de demanda mundial por investimento da ordem de US$2.0 trilhões. De acordo com o Banco Internacional de Compensações (BIS), somente Brasil precisaria de US$400.0 bilhões por ano para investimento de longo prazo, por um período de sete anos. Isto para manter um ritmo de crescimento moderado. Brasil, México e Índia somariam, por ano, necessidades de financiamento da ordem de US$2.6 bilhões. Mas não há recursos para tais investimentos.

 

O segundo ponto a ser considerado é que os países, tomada a Inglaterra como exemplo, parece não querer combater a inflação via taxas mais altas de juros.  De fato, conforme o “Inflation Report – February 2013”, do Banco da Inglaterra:

 

“CPI inflation is likely to rise further in the near term, and may remain above the 2% target for the next two years. That is a higher profile than three months ago, and partly reflects a persistent inflationary impact both from ‘administered and regulated’ prices and from the recent decline in sterling. Inflation is expected to fall back to around the target by the end of the forecast period, as a gradual revival in productivity dampens domestic cost growth, and external price pressures fade.” Ver pág. 39.

 

As previsões para o comportamento da Libor é de manutenção do valor de 0,5 % ao ano. À página 49, fica estabelecido que:

 

“In the light of those considerations, the Committee decided that it was appropriate to maintain Bank Rate at 0.5% and the size of the asset purchase programme at £375 billion in order to meet the 2% CPI inflation target over the medium term.”

 

Assim, a política monetária parece ser de expansão moderada.

 

Mas secundando essa política existe a política cambial. Aqui o ponto central é a política de sobrevalorização de algumas das moedas mais importantes do mundo: yuam e iene.

 

Este fato deve ser o ponto focal das discussões do G-20 nos dias 15 e 16 do corrente mês. O que for ali decidido pode ser de grande importância para a economia mundial.

 

Finalmente, um ponto a ser levantado é sobre a pretensão do BRICS em estabelecer um Fundo Virtual de Reservas. Parece que esta já é uma decisão tomada em definitivo. O impasse é sobre a ordem de grandeza desse Fundo. Para a China ele deveria ser de US$240.0 bilhões. Mas as propostas dos outros países giram em torno de 50 a 120 bilhões de dólares. Se for de US$50.0 bilhões, cada país fará um aporte de capital de US$10.0 bilhões.

 

A pergunta é. Qual a necessidade desse Fundo? A idéia é que o Fundo sirva de anteparo para as crises internacionais. Assim, ao criar o Fundo, o BRICS demonstra para o mundo que está pronto para enfrentar futuras crises cambiais.

 

O novo fundo seguirá o modelo da Iniciativa Chiang Mai, um mecanismo multilateral criado em 2000 para permitir a troca de moedas entre a China, o Japão, a Coreia do Sul e os países da Associação das Nações do Sudeste Asiático (Asean). Atualmente, a Iniciativa Chiang Mai dispõe de US$ 240 bilhões.

 

Aqui vale chamar a atenção para dois pontos muito importantes: a criação de “fundos de anteparo”, como o Chiang Mai  e agora o do BRIGS é um sinal de que não haverá acordo para o fortalecimento do FMI? É também, um sinal de que se espera nova (ou novas) crise (s)?.

 

Naturalmente os ministros desses países negam tal expectativa. Mas é sempre deles a obrigação de dizer que está tudo bem. Caso contrário o pânico se espalharia.

 

Todos estes fatos me levam a acreditar que as autoridades monetárias mundiais não estão apostando no fim da crise internacional e que cada país está tomando as precauções que mais lhes convém. Resta saber se isto é a atitude correta.

 

Não seria mais prudente recorrer ao Lord Keynes e ressuscitar o “bankor”?

 

Ou até o uso da “Tobin Tax”?



    Pedro Vianna


    Sócio fundador da Econometrix e da TPJ Economistas Associados, com 40 anos de experiência na área da Ciência Econômica. Foi Diretor do Sistema BEC/BANDECE. Foi chefe do Escritório Técnico de Estudos Econômicos do Nordeste-ETENE, do BNB. Foi Vice-Presidente da Associação de Bancos de Desenvolvimento - ABDE. Foi Professor Titular em Ciência Econômica da Universidade Federal do Ceará. Foi Professor Pesquisador do Seminar Für Allgemeine Betriebswirtschaftslehre, Beschaffung und Produktpolitik, e do Institut Für Finanzwissenschaft, ambos da Universidade de Colônia (Alemanha). Especialista nas áreas de Economia Internacional e Ciência Tributária.