A ilusão do desenvolvimento



A ILUSÃO DO DESENVOLVIMENTO

Marcos C. Holanda

Professor Titular

Departamento Economia Aplicada UFC

Não restam duvidas que a refinaria e a siderúrgica são projetos importantes para a economia do estado. Preocupa-nos, no entanto, provavelmente pelas magnitudes dos investimentos projetados, que eles sejam vistos como a garantia do nosso desenvolvimento.

Essa ilusão do desenvolvimento fácil deve ser de pronto dissipada se realmente queremos ter no estado níveis mínimos de bem estar econômico e social. Precisamos cair na real e entender que o desenvolvimento demanda mais criatividade, mais alternativas, mais qualidade e menos quantidade dos valores investidos.

Em primeiro lugar nos preocupa que Pernambuco, nosso principal concorrente econômico, tenha hoje estratégia de crescimento literalmente igual a nossa. Um porto competitivo como sede de uma refinaria, de um pólo petroquímico, de uma siderúrgica, de um estaleiro, de uma ZPE e de uma fabrica de automóveis. Nessa competição Pernambuco partiu e está na frente, pois já garantiu uma fábrica da FIAT, já possui investimentos em petroquímica e possui claras vantagens comparativas na indústria naval.

Do ponto de vista econômico é interessante observar como a instalação de uma refinaria é disputada pelos estados. Talvez pela magnitude do investimento, na casa dos bilhões de dólares, e pelos milhares de empregos gerados em sua construção ela é vista como uma redenção para a economia local. Nos Estados Unidos é o contrário. Faz trinta anos que uma refinaria de porte não é construída e lá os estados fazem é cobrar compensações pelo investimento, principalmente ambientais e de segurança.

A Petrobras certamente vai ganhar muito com a instalação da refinaria. Vai ganhar área nobre no complexo industrial do Pecém e benefícios fiscais e de infraestrutura. O estado também vai ganhar, mas a questão chave é saber o tamanho dos benefícios e sua capacidade de alavancar nossa economia.

Imposto a refinaria praticamente não vai pagar, seja pela oferta de benefícios fiscais seja pela natureza de sua produção, combustíveis e derivados, que paga imposto no destino e não na origem ou não paga nada quando é exportada. Como é um investimento intensivo em capital não gera muito

emprego direto permanente. A maioria do emprego direto criado é temporário e acontece na fase da construção. Os permanentes são na maioria indiretos. Apenas como referencia, a poderosa indústria de petróleo e petroquímica da Bahia reponde por 54% da produção industrial do estado, mas apenas por 8,2% do emprego industrial.

Restam as ligações para traz e para frente com a economia local. Aqui também os benefícios são limitados. Não produzimos insumos relevantes para a refinaria principalmente petróleo e a produção não vai alimentar indústrias locais já que na sua maioria será diesel para exportação. A ligação para frente promissora seria a partir de um pólo petroquímico. Aqui um porém o nordeste já possui um grande pólo na Bahia e Pernambuco esta na frente na instalação de outro. Existe espaço para um terceiro pólo na região em um negócio onde a escala é fundamental?

O projeto da siderúrgica nos parece mais promissor, mas também vai gerar, em um primeiro momento, benefícios limitados. Vai gerar pouca receita de impostos já que tem incentivos fiscais e a produção é toda para exportação. Também é um projeto intensivo em capital com geração limitada de empregos diretos.

A ligação para traz é pequena já que os principais insumos do projeto, ferro e carvão, vem de fora. As perspectivas de ligação para frente são mais promissoras, se e somente se, uma segunda fase de produção de chapas laminadas for implantada e conseguirmos alavancar nosso incipiente pólo metal-mecanico.

Em resumo os investidores privados vão ganhar muito e a economia local bem menos. Os beneficios para o estado serão longe daqueles necessários para nos colocar em um novo patamar de desenvolvimento. Se tiver uma nova oportunidade nesse espaço tentarei apresentar alternativas complementares para a nossa economia.

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    Marcos Holanda


    Possui graduação em Economia pela Universidade de Fortaleza (1984), graduação em Engenharia Civil pela Universidade Federal do Ceará (1983), mestrado em Economia pela Fundação Getúlio Vargas - RJ (1987) e doutorado em Economia - University of Illinois (1993). Atualmente é pesquisador do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico e Professor Titular da Universidade Federal do Ceará. Foi fundador e primeiro Diretor Geral do Instituto de Pesquisa e Estratégia Econômica do Ceara IPECE. Tem experiência na área de Economia, com ênfase em Balanço de Pagamentos; Finanças Internacionais, Finanças Públicas atuando principalmente nos seguintes temas: INflação, Taxa de Cambio, Desenvolvimento Econômico, Comércio Internacional e Economia do Setor Público.