A terceira Itália: modelo regional de desenvolvimento industrial



Pedro Sisnando Leite

Introdução

 

A experiência italiana de desenvolvimento industrial com base regional tem se tornado uma referência constante na literatura internacional. Em missão de estudo como técnico em desenvolvimento do Banco do Nordeste do Brasil e professor da Universidade Federal do Ceará, estive nessa região desde a década de 70 até anos recentes. Faço alguns comentários sobre essas observações no livro de minha autoria “A Luta pelo Desenvolvimento Regional e Rural no Mundo, 2006”, editado pelo Banco do Nordeste e Instituto do Ceará ( www.vivali.com.br/newsletter/psisnando).

 

A economista Beatriz Azevedo da Fundação de Economia e Estatística Siegfried Emanuel Heuser estudou detalhadamente esse exemplo de desenvolvimento regional com o objetivo de averiguar a sua aplicabilidade ao Sul do Brasil. Segundo essa pesquisadora, os distritos industriais da Terceira Itália são baseados em agrupamentos de pequenas empresas que desfrutam de uma série de rendimentos coletivos, decorrentes da concentração de especialização de produção e de mão de obra competente em uma mesma área geográfica.

 

A finalidade desta Crônica é apresentar os principais aspectos desse modelo italiano como referência para a geração de ideias que possam servir de orientação para o Programa Regional de Inovação Industrial que a Federação das Indústrias do Ceará (FIEC) está executando com o apoio técnico da Universidade israelense  Ben-Gurion, que possui uma sólida história de atividades de pesquisa e empreendedorismo em desenvolvimento regional. O foco principal deste Programa é a inovação do setor industrial do Ceará por meio de ações de fortalecimento das relações entre o setor industrial, as universidades cearenses e o governo, com a coordenação do Instituto de Desenvolvimento Industrial da FIEC. Estou colaborando com essa iniciativa desde 2011 na condição de voluntário, considerando que se trata de questões do meu interesse acadêmico e profissional. Também tenho mantido continuado relacionamento com os professores e técnicos de Israel que colaboraram com projetos de desenvolvimento econômico regional com o Banco do Nordeste, onde ocupei as funções de chefe da Divisão de Estudos Agrícolas durante vários anos.


A Terceira Itália

 

A Itália é um país de 300 mil km² e conta com mais de 60 milhões e habitantes. A organização administrativa é constituída de um Governo Central ( parlamentarista) com vinte regiões e noventa e cinco províncias.

 

Numa visão global, o País se caracteriza por uma região muito desenvolvida no Norte e Noroeste geográfico, denominado de Primeira Itália; uma grande região conhecida como a Segunda Itália, onde se registra índices de subdesenvolvimento marcantes historicamente. É similar ao que ocorre no Brasil com as Regiões Sul e Sudeste e o Norte e Nordeste. No caso de Itália, a Região do Centro e do Nordeste tem apresentado avanços continuados em seu desenvolvimento industrial por meio de aglomerações de pequenas firmas e que é denominada de Terceira Itália.

 

O modelo de desenvolvimento dessa nova Região surgiu com grande força a partir da década de 70 e 80, ao mesmo tempo em que o “Programa de Desenvolvimento Regional da “ Cassa per il Mezzagiorno” entrava em colapso no Sul italiano. Vale lembrar que essa organização serviu de modelo para a formatação da Superintendência do Desenvolvimento do Nordeste(SUDENE) na década de 60. Estudei também tal experiência “in loco” e tive a oportunidade de ser aluno, no meu Curso de Pós-graduação em Israel, do professor Gabriele Pescatore, então Presidente da “Cassa”, o qual muito me instruiu sobre as políticas de desenvolvimento regional daquele País (Ele tinha grande interesse pelos problemas do Nordeste e esteve aqui em 1966, juntamente com o meu saudoso professor Dr. Raanan Weitz, diretor do Settlement Study Centre de Rehovot( Israel). Faço esses comentários para que os meus leitores fiquem sabendo que tenho certa familiaridade com os assuntos que estou abordando no momento.

 

Como já mencionado, a Região que estou tratando abrange as Províncias de Bolonha, Florença, Ancona, Veneza, Milão, Turim e Gênova. Como muitos dos leitores sabem, trata-se de uma das mais lindas visões de riquezas paisagísticas da Europa. No entanto, historicamente essas Províncias eram sustentadas economicamente pelo turismo e pela exploração agropecuária e a indústria de vinhos. Nas últimas décadas, entretanto, ocorreu uma profunda transformação produtiva nessa região, com predomínio de um moderno parque industrial com características diferenciadas das grandes indústrias da Região Norte do País e mesmo das empresas estatais do Sul.

 

Esse novo polo industrial concentra principalmente atividades de fabricação de calçados, cerâmica ( mais importante do País) têxtil, confecções de fama mundial, implementos agrícolas, autopeças, máquinas, ferramentas e uma infinidade de produtos agroindustriais. Somente no polo da Emília-Romana, com população de 4 milhões de habitantes, estão em funcionamento 325 mil firmas registradas, com média de menos de 5 empregados por empresa, com 58% do emprego. Em Modena e Reggio Emília, mais de 200 pequenas fábricas de cerâmica respondem por 80% da produção italiana de ladrilhos e 27% da produção mundial, conforme informação verbal do Presidente da Federação das Indústrias dessa Região.

 

Outro exemplo que pode ser mencionado do meu conhecimento pessoal é a Província de Bolonha, com uma área metropolitana com 400 mil habitantes e que praticamente não tem crescido na última década. A participação da indústria é de 29% do PIB e 34% do emprego. Segundo o último censo, existiam na Província 310 mil pessoas trabalhando na indústria e uma média de 10 pessoas por firma, das quais 50% eram de familiares. Apenas 88 empresas contavam com mais de 250 empregados, respondendo por 22% do emprego. Enquanto no passado Bolonha se notabilizava pela indústria têxtil tradicional, especialmente da seda, atualmente se destaca, pelos setores de excelência em equipamentos sofisticados e eletrônicos, assim como de produtos da confecção de calçados.

 

Conforme registra em seus estudos sobre a Terceira Itália, o professor João Amado Neto ( Escola Politécnica da Universidade de São Paulo) afirma que essa região tem a mais elevada renda per capita da Itália, enquanto na década de setenta a atividade que predominava era a campesina, como já assinalei antes.

 

Historicamente falando, é possível afirmar que o modelo da Terceira Itália é constituído de um misto de “distritos industriais”, “sistemas locais de produção” e “clusters”. Todos eles baseados na pequena e média indústria. O economista Adayr da Silva ( O modelo Italiano de Desenvolvimento Regional, 2010) define distritos industriais como ações de um processo histórico das características de uma região ou determinado por motivos da vocação local. O autor original dessa formulação foi o economista Alfred Marshall em fins do século XIX, apoiado no padrão de organização econômica da Inglaterra onde se localizavam na periferia dos centros urbanos. Já os clusters são aglomerações industriais localizadas em regiões periféricas que possuam um forte poder de inovação ( tecnológico ou organizacional). Michael Porter, economista americano criador desse conceito, diz que cluster é semelhante a uma rede de empresas, normalmente no mesmo setor de atividade, interconectada, altamente competitiva, com uma base geográfica. Outros economistas afirmam que não existe um modelo único de cluster. Quanto aos arranjos produtivos, o Instituto de Pesquisa Econômica (IPEA) realizou vários estudos sobre o assunto chegando ao consenso de que os mesmos são agrupamentos de empresas de vários tamanhos com ações de interação entre agentes existentes em uma região ou setor. O modelo clássico é o agrupamento maduro com concentração de atividades com uma base tecnológica significativa, observando-se relacionamentos mais intensos dos agentes produtivos entre si e com os demais agentes institucionais locais. Há também o novo agrupamento denominado Polo Tecnológico, reunindo empresas intensivas em conhecimento ou com base tecnológica comum, tendo como parte do conhecimento as universidades e os centros de pesquisas. Finalmente, existem os agrupamentos de redes de subcontratação. Esses nem sempre estão instaladas na mesmo área geográfica, mas que atendem a demanda de grandes empresas.

 

Os resumidos comentários que estou fazendo sobre algumas das características do processo de industrialização da Terceira Itália têm o propósito de evidenciar que o planejamento ou a execução de um programa regional de inovação industrial, em um determinado polo, precisa levar em consideração os pré-requisitos e as medidas de motivação, cooperação e de interação que assegurem a sustentabilidade das empresas contempladas. As iniciativas isoladas de novas empresas motivadas por incentivos fiscais e inexperiência empresarial certamente não resistirão à competitividade e outras dificuldades circunstanciais desfavoráveis ao empreendimento.

 

Na verdade, a falta de participação da sociedade civil das pequenas cidades do Ceará tem sido apontada como uma das principais causas do pouco sucesso das políticas, programas e projetos periodicamente lançados pelo setor publico com o fito de descentralizar o desenvolvimento do Estado. Para o êxito de um programa de industrialização há que contar com alguns fatores para estimular os empresários pioneiros e os já instalados. A definição das oportunidades tem de identificar as vantagens locacionais favoráveis( matérias primas e mercados), agrupamento de empresas, disponibilidades de tecnologia ou de assistência técnica, recursos humanos e o ambiente institucional que agregue os interesses do desenvolvimento regional e o inter-relacionamento dos agentes produtivos.

 

É preciso que a comunidade local dessas cidades seja sensibilizada e organizada com base na cooperação para consolidar a ideia do distrito ou projeto local de industrialização. Como aponta Putnam (1996), o modelo da Terceira Itália fundamenta-se na organização de produtores, com base na aliança informal e apoio do governo. Enquanto isso, o empresariado precisa está atento para os programas industriais que tenham como tipologia o modelo de clusters, pois estes exigem vários pressupostos que se não preenchidos poderão levar as iniciativas com esse propósito ao fracasso. Na Terceira Itália os clusters levam em conta a tradição local de uma linha de produtos, experiência de cooperação entre os empresários, fatores locacionais favoráveis, recursos naturais ( agroindústrias), energia, recursos humanos e ambiente institucional favorável.

 

De acordo com as opiniões do pesquisador Schuch (2011), as políticas regionais de industrialização do interior devem orientar-se por projeto que conte com participação da comunidade envolvida. Além de empresários inovadores, é preciso o auxilio governamental decidido a ajudar para o êxito do projeto. Mas o grande problema e ponto fundamental é trabalhar para construir um ambiente institucional que reúna interesses do desenvolvimento regional, auxiliado pelas conexões de um capital social que viabilize a cooperação e inter-relacionamento dos agentes produtivos.

 

O sucesso da Terceira Itália não dependeu apenas de uma vontade e decisão da esfera econômica. O que influenciou o desenvolvimento foi à capacidade em aplicar produtivamente esforços conjuntos em busca da eficiência coletiva. Por sua vez, Giuseppe Cocco et alli ( Empresários e Empregos nos Novos Territórios: O caso da Terceira Itália, 1999), diz que a criação de uma distrito industrial não depende apenas de características socioculturais , mas também da constituição e da solidariedade de uma rede estável de vínculos com os mercados finais. O intercâmbio de informações, conhecimentos e investimentos serão fundamentais para o desenvolvimento de empresas inovadoras e a estratégia para o alcance de mais competividade.

 

Conclusões

 

O modelo de industrialização da Terceira Itália está fundamentado nas relações sociais entre empresas, governo e sociedade em geral. A característica predominante dessas regiões industriais é a existência de uma rede de pequenas firmas especializadas no processo produtivo e integradas entre si, fortalecendo o processo de desenvolvimento em nível local. Ou seja, a aglomeração de pequenas empresas proporcionam o amento da eficiência individual e coletiva.

 

Os distritos formados de pequenas e médias industrias, com o apoio de instituições públicas, gera uma estabilidade em temos de emprego e renda, sem motivar “drenagem” ou efeitos regressivos das áreas adjacentes de recursos de outras regiões, como ocorre no modelo produzido pela proposta do renomado professor Albert Hirschman.

 

Vale apena relembrar, no entanto, que esse economista ( autor do livro Estratégia de Desenvolvimento Econômico, 1973) explica que para alcançar um desenvolvimento econômico sustentável e equitativo não é suficiente aplicar políticas econômicas sofisticadas, dispor de programas de investimentos ou construir infraestrutura básica. “O motor do desenvolvimento, afirma Hirschman, além de boas políticas, é contar com instituições eficientes”.

 

Sobre o assunto, é oportuno lembrar também que Arthur W. Lewis, Prêmio Nobel de Economia(1979), estudou esse fenômeno, exposto no seu famoso livro “A Teoria do Crescimento Econômico, (1965)”. O crescimento econômico depende, segundo Lewis: ”por um lado, dos recursos naturais disponíveis, e no outro, do comportamento humano”. Mas as Instituições é que promovem o crescimento, explica, “ na medida em que associam esforços na busca de oportunidades econômicas”. Do mesmo modo, o Prêmio Nobel de Economia de 1993, Douglass C. Nort é enfático ao afirmar que “o desenvolvimento econômico é função dos investimentos e de sua evolução. A escassez da capital social e institucional, no entanto, não é resolvido com a abundância de capital financeiro e sim por investimentos em educação de qualidade e saúde, variáveis-chaves para o desenvolvimento”.

 

Por fim, uma observação oportuna com relação ao Programa da Federação das Indústrias do Ceará, com vistas à interiorização e inovação das indústrias neste Estado, é formulada pelo economista Dr. Antônio Carlos Filgueira Galvão ( Politicas de Desenvolvimento Regional e Inovação, 2011): “ As firmas constroem sua importância nas relações com outras firmas, agências de governo, centros de pesquisa e universidades, com os quais podem formar parcerias”. Essa visão tem sido o segredo da política de desenvolvimento industrial da Terceira Itália, que certamente poderá servir de inspiração e referência para o programa de interiorização da inovação industrial do Ceará.



    Pedro Sisnando


    Economista com pós-graduação em desenvolvimento econômico e planejamento regional em Israel. Atualmente é vice-presidente do Instituto do Ceará (Histórico,  Gegráfico e Antropológico) e da Academia de Ciências Sociais do Ceará, bem com sócio fundador da Academia Cearense de Ciências. É professor titular  (aposentado) do programa de mestrado (CAEN) da Universidade Federal do Ceará, onde foi também Pró-Reitor de Planejamento. No Banco do Nordeste, ocupou o cargo de economista  e Chefe da Divisão de Estudos Agrícolas do Escritório Técnico de Estudos Econômicos(ETENE). No período de 1995-2002, exerceu a função de Secretário de Estado de Desenvolvimento Rural do Ceará. Publicou cerca de 40 livros em sua área de especialização e escreveu muitos artigos para jornais e revistas.