Vivam os carros! Abaixa o Povo!



Osório Viana

Todos sabem que Paris é conhecida como a cidade-luz, aquela sobre a qual o escritor Ernest Hemingway afirmava: “Paris é uma festa!”. Um de seus mais belos monumentos é o magnífico Arco do Triunfo, bem no centro da Praça da Estrela, cujo nome advém de a ela convergirem 12 avenidas diferentes. Doze.

 

Que barbaridade! Será? É possível que a Administração de Fortaleza queira recomendar à Prefeitura de Paris a derrubada de uma das mais belas praças daquela cidade... Sim, porque os carros seriam mais importantes do que as pessoas que estão fora deles (e mesmo dentro), do que a beleza ambiental e histórica, do que a sensação de bem-estar e de vida que residentes e visitantes experimentam.

 

Que tristeza! Querem destruir a mais bela e simpática praça de Fortaleza. Querem impor o enfadonho “estilo modernoso” à nossa cidade, retirando-lhe a praça cujo caráter é doce, curvilíneo e feminino. Querem tirar o seu Natal e a sua árvore. Bem que poderiam torná-la mais acessível ao público (menos que aos carros), mais participativa em nossas manifestações de luta, de arte ou de alegria.

 

Recife e Salvador conservam os velhos nomes de suas ruas e seus monumentos. Herdaram das oligarquias da cana e do cacau mais refinamento, mais gosto pela cultura e pela História. Já Fortaleza parece que foi, em grande parte, dominada por mascates incultos: aqui, as folclóricas denominações das ruas do Centro substituíram-nas por nomes de militares ou políticos; na Aldeota, muito depois, foi ilegalmente posto abaixo o Castelo do Plácido (monumento único, mesmo não sendo puro); já as Lojas Marisa taparam com imensos flandres planos e retilíneos a bela fachada de antigo e burilado prédio da Praça do Ferreira. Viva o “modernoso”!...

 

Vivemos, nos tempos recentes, a modernização do lema que passou a ser: “Vivam os carros e vivam as empreiteiras!” Isto, na cidade e no Estado (Urbi et Orbi...). Em vez da delimitação e legalização do Parque do Cocó, uma Ponte Estaiada cortando os seus ceus e obscurecendo seus berçários-manguezais. Em vez de maior carinho pela querida Praça Portugal, memória de nossas históricas origens lusitanas, sua derrubada: para bem dos carros. Não da população, nunca consultada pelos iluminados tecnocratas ou déspotas esclarecidos ou monarcas absolutos. Pois, o povo “é um detalhe”...



    Osório Viana


    Bacharel em Ciências Econômicas pela Universidade Federal do Ceará; Mestre em Economia Agrícola pela University of California, Berkeley; Livre-Docente em Desenvolvimento Sustentável na Universidade Federal do Ceará; Especialista em Economia Ecológica pela Fundação Joaquim Nabuco; Especialista em Estimação de Parâmetros Nacionais e Preços de Conta pela Universidad de los Andes – UNIANDES; Especialista em Avaliação Financeira e Econômica de Projetos Industriais pela Universidad de los Andes – UNIANDES; Especialista em Desenvolvimento Econômico e Social pelo Institut d’Etudes du Développement Economique et Social – IEDES - Université de Paris; Especialista em Administração de Empresas pela Escola de Administração de Empresas da Fundação Getúlio Vargas – EAE/FGV; Especialista em Análise Econômica pela Universidade Federal do Ceará – UFC; Foi Professor do Departamento de Teoria Econômica da UFC; Foi Economista do Departamento de Análise de Projetos e do Departamento de Planos e Programas, do Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID); Ex-Assessor para o Ensino Superior, da Secretaria da Ciência, Tecnologia e Educação Superior, do Governo do Estado do Ceará; Ex-Superintendente do Instituto de Planejamento Municipal (IPLAM), da Prefeitura Municipal de Fortaleza.