A transição da indústria do Ceará



Pedro Sisnando Leite

Introdução

 

Muito tem se falado nos últimos anos sobre a desindustrialização no Ceará. Outro tema é a concentração das fábricas na região metropolitana de Fortaleza, assim como a queda da produtividade do setor, afetando a competividade das empresas ante a invasão de manufaturados chineses e mesmo do sudeste do Brasil. Há cinquenta anos, imaginei que o Ceará seria na virada do século XX um Estado desenvolvido e com uma indústria pujante e moderna, competindo nos mercados internacionais. Nessa época eu era um dos economistas coordenadores dos estudos realizados pelo Escritório Técnico de Estudos Econômicos do Banco do Nordeste sobre as perspectivas da economia do Nordeste na década de setenta (Economia do Nordeste: Propostas de política da década de setenta, 2014).

 

Durante o período de 1970 -1980 a indústria cearense cresceu a uma taxa jamais alcançada em sua história. Ainda mais surpreendente era o fato de que o setor empresarial local estava afluindo com muito entusiasmo e determinação para investirem e organizar-se em movimentos classistas.

 

Não será possível neste resumido texto analisar as causas que levaram o processo de industrialização do Ceará para as dificuldades que estão se refletindo em baixas taxas de crescimento do setor e as dificuldades competitivas atuais. Pelas experiências internacionais, onde semelhantes problemas foram vividos e superados, as soluções adotadas eram quase de um mesmo padrão. Como ensina Peter Drucker, precisamos aqui no Ceara de uma sociedade empresarial na qual a inovação e o espírito empreendedor sejam normais, estáveis e contínuos.

 

Novo Modelo de Inovação na Indústria Cearense

 

Os estudos realizados (2012-2014) sobre o Ceará pela equipe do renomado professor Raphael Bar-El e Doutora Dafna Schwartz, do Bengis Center da Universidade Tecnológica Ben-Gurion de Beer-Sheva (Israel), por solicitação e apoio da Federação das Indústrias do Ceará, apresentam os caminhos para uma nova fase da industrialização do Ceará. Segundo esses especialistas e acadêmicos colaboradores dessas pesquisas, o setor industrial do Ceará está afetado por muitas causas que dificultam o seu avanço. Dentre as quais podem ser mencionadas a elevada carga tributária, deficiente infraestrutura física e educacional e de capacitação profissional, além de um mais forte apoio de pesquisas tecnológicas.

 

As recomendações mesmo dos empresários e acadêmicos participantes do Projeto Universidade-Empresa (UNIEMPRE) é de que se torna urgentemente necessário mudar o modelo de industrialização do Ceará. Os sistemas de meros incentivos fiscais e financeiros diretos não mais respondem a um mundo globalizado que trabalha com instrumentos indiretos e regionalizado, numa equação de ecossistema. O novo modelo será movido pela inovação e metas de crescimento econômico pela competitividade. As numerosas recomendações para o Ceará são de medidas que devem ser executadas conjuntamente pela indústria, pela academia e pelo governo, segundo a concepção internacionalmente conhecida de “Triple Helix”. A base do novo sistema de industrialização difere do caminho seguido até agora entre nós que considera os programas e politicas como um problema setorial sem a devida integração sistêmica da economia. A ideia geral do econssistema mapeado para o Ceará é que a invenção não é apenas o resultado de uma empresa. São ações simultâneas e conectadas com os mesmos objetivos.

 

Uma conclusão importante sobre as perspectivas futuras da industrialização do Ceará é que os empresários estão bastante conscientes da necessidade de inovação e já estão dedicando esforços nesse sentido. As sondagens e workshops realizados mostram que todos os atores envolvidos com o processo de inovação e avanços tecnológicos estão comprometidos com esses objetivos de modernização da indústria do Estado.

 

Desconcentração e Interiorização da Indústria

 

O problema básico que tem desafiado os governantes do Ceará é o desenvolvimento econômico desigual entre a Região Metropolitana de Fortaleza e o Interior, o que tem levado, no decorrer do tempo, à pobreza e diferenças econômicas entre essas áreas com prejuízos para a economia do Estado.

 

Conforme analisado nas últimas duas décadas, a pobreza do Ceará pode ser reduzida com uma política de promoção do desenvolvimento econômico regional dinâmico, com menor dependência da assistência social. O foco da política com esse objetivo deve ser orientado para um esforço autóctone e de integração do interior com a economia do Estado. Os princípios dessa política, que foram amplamente discutidos com os meios acadêmicos nordestinos e internacionais, são de que a promoção do desenvolvimento econômico do Ceará deve concentra-se em uma combinação de medidas macroeconômicas e sociais com tratamento focado no nível e cidades secundárias e regionais que sirvam de base para a promoção da industrialização e serviços de apoio à agricultura. A meta é proporcionar uma maior coerência entre desenvolvimento econômico local, regional e estadual. Trata-se de uma espécie de globalização da economia estadual com benefícios para todos.

 

A promoção da atividade econômica no interior, no entanto, exige a consecução de altos níveis de competitividade e de produtividade. Para o alcance desse objetivo é fundamental incentivar a iniciativa privada a investir na promoção da inovação e incorporação de novas tecnologias. Isto atrairá para essas áreas recursos adicionais para os processos de inovação e modernização empresarial.

 

A política governamental deve buscar atingir tal propósito pela criação de condições externas para um desenvolvimento saudável das atividades econômicas no bojo de um sistema de livre mercado, pela solução de falhas desse sistema e restrições a ele impostas.

 

As ações necessárias para isso envolvem a reestruturação da distribuição espacial da população urbana no interior, bem como facilita o acesso da população aos principais fatores da atividade econômica (capital humano, tecnologia, infraestruturas, capacidade organizacional). Essas providências operacionais envolvem muitos setores na economia e da sociedade do interior, criando uma sensação de participação e esperanças. Muitas dessas iniciativas políticas baseiam-se em esforços cooperativos de vários elementos nas regiões, gerando, assim, a formação de um capital social criativo. Sempre que possível, deve-se buscar maximizar o envolvimento do setor privado e da população local, com um mínimo de operação governamental direta. A base desse sistema são as cidades secundárias que precisam ser fortalecidas para motivar os empresários nos seus planos de investimentos.

 

A Federação das indústrias do Ceará e seus órgãos operacionais deverão ter um foco mais abrangente em apoio ao Governo para o desenvolvimento industrial das várias regiões do Ceará. Essas ações estão detalhadas no livro “Inovando no Ceará” (FIEC, 2014). O motor dessa política é a estratégia de ação por meio de “Polos Integrados de Inovação” para dar apoio às empresas nas várias regiões de modo a consolidar uma economia mais equilibrada e sustentável.

 

Articular e Inovar para Competir

 

Depois de várias décadas de industrialização do Ceará, o que avançamos até agora? O empresário Dr. Roberto Macêdo, que tem vivenciado de modo pleno essa experiência, é de opinião que “A inovação, que é a mola mestre da competição, ainda não está devidamente tratada no Brasil”. Por sua vez, o atual Presidente da Federação das Indústrias do Ceará, Dr. Beto Studart, diz que “Não se discute que a indústria ganha muito ao se aproximar da ciência, e esta, por sua vez, ganha também ao se colocar ao lado da indústria”.

 

Muitos estudos sobre a indústria de transformação do Ceará, dos quais participei, apontam que a sociedade empresarial aprendeu que o desenvolvimento depende das instituições, e de como elas se articulam. Há o sentimento também de que um fator determinante para o desenvolvimento é a cooperação, a liderança e a experimentação para aprender com os exemplos de sucesso. Outra lição é que cada Estado possui suas características próprias e suas potencialidades. É preciso articular-se uns com os outros para fazer junto o que é difícil realizar separadamente. Para isso, torna-se imperativo o planejamento que tem falhado no Nordeste desde há muito tempo.

 

Os estudos realizados pela Federação das Indústrias do Ceará (2012-2014), com a consultoria da Universidade de Ben-Gurion (Israel), consideraram todas essas questões e fizeram recomendações práticas de diretrizes para fundamentar a inovação do setor industrial do Ceará nos próximos anos. Um dos aspectos muito enfatizados são a necessidade urgente da adoção de um nível mais elevado de comunicação entre os vários componentes do “ecossistema” produtivo do Ceará, especialmente entre as indústrias, as universidades e o governo. O setor financeiro público e privado devem ser motivados a ter um envolvimento mais extenso no processo de inovação. É fundamental que a Federação das Indústrias venha a desempenhar um papel mais atuante de articulador do sistema de inovação com o ambiente econômico e colaborando com o governo na formulação das políticas e das diretrizes dos sistemas de incentivos para às indústrias. Isso porque, no caso do Ceará, o sistema de inovação ainda não atingiu o estágio de maturidade e todo o processo de industrialização está comprometido na sua marcha para atingir o grau de autossustentado, na velocidade necessária.



    Pedro Sisnando


    Economista com pós-graduação em desenvolvimento econômico e planejamento regional em Israel. Atualmente é vice-presidente do Instituto do Ceará (Histórico,  Gegráfico e Antropológico) e da Academia de Ciências Sociais do Ceará, bem com sócio fundador da Academia Cearense de Ciências. É professor titular  (aposentado) do programa de mestrado (CAEN) da Universidade Federal do Ceará, onde foi também Pró-Reitor de Planejamento. No Banco do Nordeste, ocupou o cargo de economista  e Chefe da Divisão de Estudos Agrícolas do Escritório Técnico de Estudos Econômicos(ETENE). No período de 1995-2002, exerceu a função de Secretário de Estado de Desenvolvimento Rural do Ceará. Publicou cerca de 40 livros em sua área de especialização e escreveu muitos artigos para jornais e revistas.