A Primavera Pós-Moderna



“A PRIMAVERA PÓS-MODERNA”

AS INJUSTIÇAS SOCIAIS ESTÃO PROVOCANDO REVOLTAS EM TODO O MUNDO, ACELERADAS PELA INTERNET

Osmundo Rebouças 

         No tempo da Revolução Francesa (a partir de1789), como não havia internet, as pessoas ou grupos que queriam protestar contra os desmandos injustos dos tiranos, além de sofrerem sérios riscos de vida, tinham dificuldades de se comunicar, para trocar idéias e para organizar algum movimento. 

         Mas o povo (“terceiro estado” – pobres e burgueses) já não agüentava os abusos praticados no “ancien régime”, pelos soberanos, o clero e a nobreza, que praticavam injustiças de toda ordem, inclusive com impostos pesados e humilhação com servidão insuportável. Mas estava surgindo o iluminismo, limiar da Idade Contemporânea, que incitava convulsões políticas contra as injustiças sociais. Na Revolução, os franceses de boa formação e caráter lutavam para implantar os princípios de “igualdade, liberdade, fraternidade”. 

         Mas a Revolução foi um processo longo, muito sangue foi derramado, com repressões, ditaduras, monarquia constitucional e dois impérios. A forte concentração de renda e os privilégios caracterizavam um “estado muito rico de povo muito pobre”. Só pagavam impostos as pessoas do “terceiro estado”. Essa situação afrontava o bom senso com evidente desigualdade e  injustiça, e levou à deflagração de revoltas impossíveis de controlar.       

Hoje, com o uso das redes sociais, a organização de movimentos passou a ser mais fácil, até dispensam que os cidadãos que se conheçam pessoalmente. E alguns hackers penetram nos documentos mais sigilosos de órgãos de governo, para acessar os segredos de medidas adotadas para eventual repressão.

         É clara a ligação entre esses fatos e as revoltas contra os ditadores árabes (Tunísia, Egito, Líbia, Iêmen e outros em ebulição, como por exemplo o caso de Muamar Kadafi, onde o ódio chegou a provocar o assassinato do ditador). Esses acontecimentos de libertação, conhecidos como “Primavera Árabe”, têm ligação direta como o que pode chamado “Primavera Occupy”, por estarem situados no mesmo prisma de pensamento de liberdade de classes oprimidas. 

         Aqui no Brasil, com os exemplos dos Estados Unidos e da Europa, e também influenciado pelos movimentos da “primavera árabe”, têm ocorrido fatos semelhantes nos últimos meses. As redes sociais estão sendo intensamente usadas para auxiliar nas mensagens e na organização, a que atendem milhares de pessoas em todos os países do mundo.

 As justificativas são diversas, capitaneadas por “injustiça social” de modo mais ou menos genérico. “Se as autoridades não agem, o jeito é que tem é a gente vir para as ruas”. A corrupção é tema que motiva muitos aliados nos protestos. A classe política em geral é bombardeada de acusações. Os altos impostos e sua carga pesada sobre mais pobres parece já estar entrando na consciência coletiva, e o que fazem os governantes com os recursos, são motivos alegados de insatisfação.

         Dia 12 de outubro passado, foi um dia especial na História do nosso País:  houve várias manifestações nas capitais brasileiras. Apesar de alguns observadores ainda não alcançarem a relevância desses movimentos,  não é conveniente menosprezar o seu significado político, aqui no Brasil, Estados Unidos, Europa, Austrália, Japão etc. Nestes países mais desenvolvidos, a rebelião ataca bastante o capitalismo e especialmente o setor financeiro (simbolizado pela Wall Street). Foco especial aborda o problema do endividamento dos países (Europa e Estados Unidos) e suas repercussões sociais e a concentração da renda, o que acirra os ânimos contra os políticos. A saída para todos esses impasses requer alto nível de organização social e política.




    Osmundo Rebouças


    Economista pela UFRJ; Mestre e PhD pela universidade de Harvard(EUA); foi professor da FEA-USP; Técnico do IPEA; Deputado Federal constituinte; Diretor do Banco do Nordeste; trabalhos publicados nas áreas de Macroeconomia, finanças públicas e economia regional; Presidente do Conselho deliberativo da CARE Brasil-SP(1998-2001); Expositor em conferências nacionais e internacionais; consultor de empresas.