Pernambuco precisa de uma nova cidade  



Pernambuco precisa de uma nova cidade

Gustavo Maia Gomes

Assim como acontece no entorno dos portos de Pecém (CE) e Suape (PE), o Litoral Norte pernambucano vive a expectativa otimista de uma revolução econômica. A montadora de automóveis Fiat está prestes a ali se instalar; a construção de um porto e um aeroporto é uma possibilidade real; vários outros empreendimentos, alguns, grandes, outros, enormes, também foram anunciados. Com a Fiat, virão dezenas de fornecedoras; com o complexo logístico, será atraído um número ainda maior de empresas. Mais renda, empregos, oportunidades.

Por um lado, parabéns; por outro, uma nota de cautela. Há trinta anos, situação semelhante se produziu no mesmo lugar. A grande esperança, então, era o turismo. Mas a realidade jamais confirmou as promessas. Ao contrário, o Litoral Norte foi ficando para trás. Em tudo, não somente no turismo. Será possível que uma nova decepção esteja a caminho? Se assim for, como evitá-la?

ABORTO TURÍSTICO

Até o início dos anos 1980, o prometido Eldorado do turismo pernambucano era a ilha de Itamaracá e outras praias da região, como Janga, Pau Amarelo, Conceição e Maria Farinha, em Paulista; Pontas de Pedra, em Goiana; Casa Caiada, em Olinda. Cada um desses lugares parecia destinado a abrigar, em pouco tempo, segundas residências da classe média de maior poder aquisitivo, assim como pousadas e hotéis de luxo, além de restaurantes de alto padrão e casas de diversão variadas. Um hotel sofisticado, para a época, (o Quatro Rodas) chegou a se instalar em Casa Caiada.

Mas erros graves foram cometidos, a partir de então. As poucas verbas do primeiro Prodetur (Programa de Desenvolvimento do Turismo no Nordeste) que vieram para Pernambuco foram aplicadas, todas, no Litoral Sul. Além disso, houve a localização de duas cadeias em Itamaracá, um forte fator de desincentivo aos que procuravam aquela praia. Corria, inclusive, a lenda de que, à noite, os presídios liberavam os internos – ocasiões que eles aproveitavam para roubar os turistas. Mesmo durante o dia, os assaltos se sucediam, com as consequências negativas que se poderiam esperar.

Esse problema com os presídios, contudo, era só de Itamaracá e o aborto turístico ocorreu, na verdade, também em Goiana, Olinda e Paulista. A principal explicação para isso parece ter sido a irresponsabilidade das prefeituras, que permitiram a mais anárquica ocupação das áreas sob sua administração. Naquela época, era comum alguém comprar um terreno “à beira-mar” – em Rio Doce (Olinda), em Itamaracá e noutros lugares –, e ser surpreendido, alguns meses adiante, com a construção de uma casa em frente à sua. Às vezes, lhe impossibilitando até mesmo o acesso à praia.

CAOS URBANO

Nessas condições, em pouco tempo, as condições de habitabilidade e de simples acolhimento aos visitantes se deterioraram profundamente. A maioria dos turistas procurou outros locais; os que ficaram tinham baixo poder aquisitivo, como os beneficiários de invasões ou os comerciantes instalados em barracos irregulares. Pode até ter sido democrático, no curto prazo; com a passagem do tempo, mostrou-se desastroso. Pois a irresponsabilidade dos prefeitos contribuiu para o colapso econômico no Litoral Norte. E ninguém, seja pobre ou rico, se beneficia da decadência.

Como as atividades turísticas exercem óbvio efeito sobre a renda local, sua retração afetou todo o setor serviços e, por extensão, explica uma parte não desprezível da queda brusca na participação do Litoral Norte no PIB pernambucano. Um dado impactante, a esse respeito: em 1985, as “despesas com salários nas atividades do comércio total” (uma medida relacionada com a atividade turística) no Litoral Norte correspondiam a 51,2% da mesma variável no entorno de Suape (Jaboatão, Cabo e Ipojuca); em 1996, essa relação havia caído para 16,1%. (Fonte: IBGE). Não por coincidência, poucos anos depois de inaugurado, o hotel Quatro Rodas fechou.

São erros que podem voltar a ser cometidos agora. Pois, com os investimentos anunciados para o Litoral Norte, haverá um enorme afluxo de pessoas procurando residir na região. Se o poder público reagir com a mesma incompetência anterior, a atual revolução das expectativas se transformará em um pesadelo urbano irreversível que inviabilizará, até mesmo, a expansão econômica posterior.

DESAFIOS, OPORTUNIDADES

Mas desafios são, também, oportunidades. O atual governo de Pernambuco bem pode vir a ser considerado, no futuro, o melhor que o Estado teve em sua História. Em parte, isso dependerá de como ele tirar proveito dos ventos favoráveis que hoje sopram. No caso específico do Litoral Norte, o governo deveria erigir, do zero, nas vastas regiões inabitadas que ainda existem ali, uma nova cidade. Planejada. Bonita. Inteligente. Sustentável. Não será necessário gastar um centavo, agora. Basta criar o marco legal que torne possível a essa aglomeração de gente – que surgirá, com ou sem governo – crescer de uma forma ordenada. Tenho até um nome para a nova cidade: Duarte Coelho.

Se, com o primeiro capitão donatário, Pernambuco foi o centro da economia colonial, no século 16; com a cidade que receberá seu nome, o Estado poderá ter a mais exemplar aglomeração urbana do Brasil, no século 21. É pegar ou largar.

 

(Este artigo será publicado, simultaneamente, em http://www.blogdatametrica.com.br, http://www.econometrix.com.br e http://www.gustavomaiagomes.blogspot.com, 14 nov 2011.



    Gustavo Maia Gomes


    Phd em Economia (University of Illinois, USA, 1985); Visiting Scholar (Cambridge University, England, 1987/88), Diretor do Ipea (Brasília, 1995-2003); Professor de economia da Universidade Federal de Pernambuco (1976-2009), Secretário de Planejamento de Pernambuco (1991), autor de livros e artigos; economista e escritor.