Reincidências alagoanas




Reincidências alagoanas

Gustavo Maia Gomes

Sob muitos aspectos, Alagoas é uma decepção. Estado, relativamente, rico em recursos naturais, tem uma economia truncada, fortemente dependente da cana-de-açúcar e seus produtos, e uma situação social deplorável até para os padrões nordestinos. De onde vêm tantos problemas? A resposta envolve muitos fatores, mas, dentre eles, a política tem lugar de destaque. Confira, abaixo, uns poucos retratos impressionistas (e impressionantes) de como o poder é conquistado e mantido naquela terra. Começando por uma notícia fresquinha, fresquinha...

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1) Deu no jornal de hoje: "Investigação da Polícia Federal afirma que a família do senador e ex-presidente Fernando Collor pagou [R$ 2,2 milhões] em 1998 pelo dossiê Cayman, conjunto de papéis forjados para implicar tucanos com supostas movimentações financeiras no exterior. Segundo o inquérito, o senador teria recebido pessoalmente a papelada das mãos de um envolvido, em Maceió”. (Folha de São Paulo, 12/12/2011)

2) Deu no jornal de ontem: "O Ministério Público Federal informou que pediu à Justiça a inclusão dos nomes dos ex-governadores de Alagoas Manoel Gomes de Barros e Ronaldo Lessa no rol de denunciados por má gestão de recursos de verbas destinados às obras de macrodrenagem do Tabuleiro dos Martins. Subscrito pela procuradora da República Niedja Kaspary, o pedido foi encaminhado com base em investigações conduzidas pelo próprio MPF-AL e Polícia Federal". (O Estado de São Paulo, 30/11/2010)

3) Deu no jornal de anteontem: "O Supremo Tribunal Federal abriu investigação sobre supostas práticas de improbidade administrativa e de tráfico de influência exercidas pelo senador Renan Calheiros (PMDB-AL), [que] já é investigado pelo STF em outro caso. A pedido do próprio senador, o Tribunal instaurou, em agosto de 2007, inquérito para apurar se ele usou notas frias de compra e venda de gado para disfarçar o pagamento de despesas pessoais por um lobista. Supostamente, a empreiteira Mendes Júnior pagava a pensão da filha de Renan com a jornalista Mônica Veloso – algo que Renan nega". (UOL Notícias: Política, 02/08/2010)

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Se fosse só isso, seria bastante. Mas, se você pesquisar, encontrará muito mais, por exemplo,

a) sobre Silvestre Péricles (governador, 1947/51) que no último dia de mandato besuntou as paredes do Palácio com suas próprias fezes, para assim recepcionar o arquiinimigo Arnon de Mello, eleito para sucedê-lo. Não tinha feito muito mais do que isso, nos quatro anos anteriores.

b) sobre o mesmo Arnon que, em 1963, tentando balear Silvestre Péricles (ambos eram senadores, nesta época), matou em pleno Senado o acreano José Kairala, um suplente que entregaria o cargo ao titular no dia seguinte – e que não tinha nada a ver com aquela briga. Além da falta de pontaria, o desastrado atirador também se distinguiu por ter legado ao mundo um filho de nome Fernando (Collor de Mello). Acha pouco?

c) sobre Geraldo Bulhões (governador, 1991/95), uma nulidade política que entregou o poder à mulher, de quem levava surras diárias com toalhas molhadas. Um dia, os humoristas do Casseta e Planeta (TV Globo) foram a Maceió perguntar à verdadeira governadora: “dona Denilma, na sua casa, quem tem Bulhões?”. Pergunta desnecessária: em Alagoas, todos sabiam quem, dos dois, tinha Bulhões. Enquanto isso, o Estado prosseguia parado, quando a situação era boa; ou afundando, quando era normal.

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Quem quiser conhecer melhor a política alagoana – menos sobre corrupção ou toalhas molhadas e mais sobre assassinatos – deve ler o livro de Jorge Oliveira Curral Da Morte (Rio de Janeiro, Editora Record, 2010). Trata-se de uma reportagem sobre os crimes de mando em Alagoas, focada em 1957, quando o pedido de impeachment do então governador Muniz Falcão levou a um tiroteio de metralhadoras dentro da Assembleia Legislativa. Apurados os “votos”, havia um deputado morto e cinco feridos.

Jorge Oliveira conta, no livro, ter entrevistado um velho jornalista alagoano que, conduzindo-o pela rua do Comércio, (à época, a principal de Maceió), ia apontando cada ponto onde alguém tinha sido assassinado por razões políticas. Conclusão do autor de Curral da Morte: “se houvessem colocado uma cruz em cada um desses locais, isso aqui seria um cemitério”.

Para os alagoanos (ou “meio alagoanos”, como eu), conhecer ou relembrar tais histórias e confrontá-las com a situação lamentável a que essa gente levou o Estado dá um pouco de tristeza e muito de raiva. Meu pai concordaria; meu irmão, tenho certeza, concordará.

 

Este artigo será publicado, simultaneamente, em http://www.blogdatametrica.com.br, Portal Econometrix e http://www.gustavomaiagomes.blogspot.com (12 dez 2011)




    Gustavo Maia Gomes


    Phd em Economia (University of Illinois, USA, 1985); Visiting Scholar (Cambridge University, England, 1987/88), Diretor do Ipea (Brasília, 1995-2003); Professor de economia da Universidade Federal de Pernambuco (1976-2009), Secretário de Planejamento de Pernambuco (1991), autor de livros e artigos; economista e escritor.