Luíza e outras celebridades sem causa



Luíza e outras celebridades sem causa

Gustavo Maia Gomes

Antes que o leitor descubra, digo eu: há muita inveja mal disfarçada neste texto. Ele trata das celebridades instantâneas, uma espécie de gente subitamente alçada à fama, mas que, em geral, não sabe fazer nada: a gostosinha foderosa do Big Brother, o futebolista incompetente convocado para a seleção, a Luíza citada no comercial televisivo. (Ela está cobrando quinze mil reais para aparecer em festas de grã-finos. Que raiva.)

Compreender fenômenos como esses só será possível depois de criarmos um novo ramo de conhecimento, a economia da notoriedade sem causa. Ou, quem sabe, ele já existe. Se não existe, os fatos e comentários alinhados abaixo poderiam servir como pontos de partida desta inusitada ciência. Tenho a esperança de que eles me façam ficar famoso, não apenas instantaneamente, mas para sempre.

DUAS CONSIDERAÇÕES

Primeira, uma reflexão sobre a velocidade e a extensão com que essas coisas ocorrem. Na escala hoje conhecida, celebridades instantâneas seriam impossíveis se não fosse a enorme redução que já houve e continua a haver dos custos de difundir e consumir informação. Luíza deve seu estrelato aos feicebuques e tuíteres, cujo acesso se tornou quase gratuito. O centroavante perna-de-pau dá entrevistas diárias porque o minuto de rádio é ridiculamente barato, seja para os que falam, seja para os que escutam. Sem a televisão, a gostosinha do Big Brother seria apenas uma inútil a mais; com a TV vendida em 290 prestações, os idiotas que a vêm diariamente (ou melhor, noturnamente) contam-se aos milhões.

Segunda, uma hipótese sobre o “conteúdo” das celebridades instantâneas. Aqui, quase tudo pode acontecer, desde o reconhecimento do heroísmo (o bombeiro flagrado ao resgatar vítima de um desses prédios que vivem caindo no Rio de Janeiro) até a ausência total de conteúdo (o exemplo emblemático é o de Luíza que nunca fez e, se depender dos que exploram sua momentânea fama, nunca fará nada relevante). Sem esquecer aquela inglesinha recém-promovida a princesa, elevada à condição de celebridade por ter-se casado com um parasita hereditário.

ORDEM NO CAOS

Mas, mesmo nessa aparente anarquia sobre o “conteúdo” das celebridades, alguma ordem pode ser detectada. A chave parece ser que, em essência, a notoriedade instantânea não depende do que a pessoa é, nem de se ela sabe fazer alguma coisa socialmente útil; depende, sim, de se o público – a massa da população, não um subgrupo reduzido dela – identifica ou não no candidato a famoso e nas suas circunstâncias alguma coisa merecedora de atenção.

Imaginem, agora, duas situações polares: (a) João das Botas é flagrado mantendo relações sexuais com uma jumenta; (b) Andrew Wiles acaba de demonstrar o último teorema de Fermat. A pergunta é quem, mais provavelmente, se tornaria instantaneamente famoso: João das Botas ou Andrew Wiles?

Nem preciso responder. O importante, entretanto, é retirar as lições que o exercício pode conter. Por exemplo: ter relações com animais é comum no Interior; qualquer homem com suficiente coragem (a probabilidade de ser atingido por um coice da jumenta é enorme) poderia fazer o que João das Botas fez. A notoriedade deste senhor, portanto, não depende dele próprio, mas da avidez do público por episódios deste tipo. Já o feito de Andrew Wiles somente foi conseguido depois de 300 anos de tentativas fracassadas por parte dos melhores matemáticos que a humanidade já produziu. Mas a resolução do problema de Fermat desperta o interesse de muito poucas pessoas e, assim, Andrew Wiles nunca será uma celebridade que faça sombra à gostosa do Big Brother. Muito menos a João das Botas.

MEU SONHO

Encerro, como comecei, com uma reflexão pessoal. Virar celebridade sempre foi meu sonho. Inspirado nos aristóteles, voltaires, keynes e churchills, que tenho por ídolos, estudei um bocado, tive cargos em governos, escrevi livros, publiquei artigos venenosos em jornais de grande circulação. Debalde. E então vem a Luíza, e compreendo quão errado eu estava.

Não obstante, paradoxalmente, o fenômeno paraibano me tem ajudado a manter viva a esperança de ficar famoso. Vou ver se dá certo minha mulher, Lourdes, dizer, em horário nobre da TV Globo: “aqui em casa, todos pagamos imposto. Menos Gustavo, que está em cana.”

Dá? 

 

Este artigo foi publicado, simultaneamente, em http://www.blogdatametrica.com.br, http://www.econometrix.com.br e http://www.gustavomaiagomes.blogspot.com (31/01/2012)



    Gustavo Maia Gomes


    Phd em Economia (University of Illinois, USA, 1985); Visiting Scholar (Cambridge University, England, 1987/88), Diretor do Ipea (Brasília, 1995-2003); Professor de economia da Universidade Federal de Pernambuco (1976-2009), Secretário de Planejamento de Pernambuco (1991), autor de livros e artigos; economista e escritor.