A Economia Cearense em 2011e as Perspectivas em 2012



A ECONOMIA CEARENSE EM 2011 E AS PERSPECTIVAS EM 2012

PEDRO JORGE RAMOS VIANNA

GUILHERME MUCHALE DE ARAUJO

RODRIGO GOMES DE OLIVEIRA

 

CONSIDERAÇÕES INICIAIS

Para se fazer qualquer prognóstico sobre as perspectivas de qualquer sistema econômico, muitas variáveis devem ser analisadas. Algumas muito importantes, até.

Listando essas variáveis, pode-se nominar:

Ø  O desenrolar da crise mundial;

Ø  As medidas de política econômica adotadas pelo governo de nível superior e seus possíveis impactos sobre a economia;

Ø  As medidas de política econômica adotadas pelo governo local e seus possíveis efeitos sobre a economia local;

Ø  O comportamento dos entes econômicos locais;

Ø  As potencialidades do sistema econômico “auscultado”

Desta forma, como se pode ver são muitas as dificuldades para se prognosticar o futuro em economia.

ASPECTOS DA ECONOMIA CEARENSE

No caso específico da economia cearense, pode-se intuir o seguinte:

i.     No que diz respeito à crise internacional, pode-se imaginar que o agravamento da crise venha prejudicar a economia cearense, haja vista que deverá haver diminuição das exportações do Estado. Considerando que o PIB do Ceará está estimado em R$ 84 bilhões e considerando que as exportações cearenses atingiram em 2011 R$ 2,6            bilhões, pode-se inferir que a queda, obviamente a depender dessa queda, não será de tanta importância para a economia cearense em seu todo. Entretanto para os setores exportadores, como, por exemplo, dos agronegócios do caju, do camarão, de flores, de frutas estes impactos podem ser muito graves. Para o setor exportador de castanha de caju, as exportações representaram 85% das vendas totais do setor (dados de 2011). Assim, uma queda substancial nas exportações, representa uma perda substancial de receitas.

ii.    Dado que o Ceará é um Estado de uma Federação, existe um nível de governo superior ao governo estadual. É o Governo da União. Neste caso, a sua economia depende de maneira crucialmente importante das medidas adotadas pelo Governo Federal. No caso específico do Brasil, existem alguns fatos que merecem destaque: a) o primeiro é a extraordinária valorização do Real, a ponto de se registrar a moeda nacional como a que mais se valorizou no último ano. Esta é uma política antiexportação e pró-importação. No caso do Ceará tal política vem causando sérios prejuízos à indústria têxtil e à indústria de confecções. Como essas indústrias representam         2% do Valor Adicionado do Estado, uma crise nesses setores poderá não ter repercussão muito grande no sistema econômico total cearense; b) por outro lado, a extremamente alta taxa de juros cobrada nas transações financeiras, também se soma em seu aspecto deletério à sobrevalorização do Real, no sentido em que aumenta os custos das operações de contrato de câmbio, prejudicando os exportadores. Além disso, taxa de juros elevada é quase sinônimo de baixo investimento. Portanto, de falta de inovação, de falta de modernidade no parque fabril, de absorção de novas tecnologias etc.; c) deve-se somar a isto, a política de aumento do salário mínimo bem acima da inflação. Não é que não se queira que o trabalhador ganhe cada vez mais. O problema é o “timing” da medida. Seria este o momento certo para dar um aumento desta magnitude?; d) também joga contra o sistema econômico, a pesada carga fiscal existente no Brasil. Esta política afeta indistintamente todos os setores produtivos (exceto o micro produtor) da economia. E afeta deleteriamente o setor exportador, pois embora a convenção internacional proíba a “exportação de impostos”, a sistemática brasileira de, para alguns impostos, “cobrar por dentro”, embute a cobrança de imposto sobre imposto, e isto encarece o produto brasileiro para exportação. Poder-se-ia, ainda, mencionar uma série de políticas que “jogam” contra o crescimento econômico, como por exemplo, a sistemática de má conservação das estradas rodoviárias no País. Mas para não alongar esta discussão, fica-se por aqui. As políticas citadas são as mais importantes para se compreender a difícil tarefa de se fazer prognóstico aqui no Brasil. É claro que os investimentos públicos agendados para até 2014 são um contra ponto a estas políticas deletérias.

iii.   No que se refere ao poder do Estado em influenciar o sistema econômico via política econômica, sua capacidade é muito limitada, haja vista que ele só pode exercer qualquer influência via política fiscal: isto é, via política tributária (via ICMS) ou via política de gastos (principalmente política de investimentos). Aqui a situação do Estado do Ceará é muito promissora. Veja-se que o Governo Estadual apregoa que deverá investir até 2014, algo em torno de R$3,0 bilhões por ano. Considerando que o PIB cearense está estimado em (algo em torno de) R$84,0 bilhões, um investimento dessa magnitude representa 3,57% do PIB. Aceitando a estimativa de que o “multiplicador do investimento” no Ceará alcança o valor de 2, então isto representaria um aumento de R$6,0 bilhões/ano, ou uma taxa de crescimento do PIB da ordem de 7,14% nesta variável. Mesmo considerando que o “multiplicador dos investimentos” não alcance 2, mas fique em 1, ter-se-ia um aumento no PIB da ordem de 3,57%. Mas é claro que o resultado final dependerá do que vai acontecer com as exportações, com as importações, com o consumo final, com o resultado líquido das ações do Governo etc. Mas o Governo Estadual ainda pode usar a política fiscal, via FDI, para promover a entrada de novas indústrias no Ceará, aumentando, assim, a taxa de investimentos na economia..

Portanto, embora o Ceará apresente um forte contraponto às políticas deletérias federais, será o embate dessas forças  que  determinará a taxa de crescimento final a ser obtida pelo Estado.

iv.   Quando se fala em investimento e em consumo, fala-se no comportamento dos entes econômicos. No que eles vão gastar em consumo e no quantum  eles vão investir. Neste último aspecto, conforme é anunciado na imprensa, as perspectivas nessa área são muito boas. Pode-se inferir que o setor privado poderá investir, anualmente,  quantias muito parecidas com o previsto para os investimentos públicos.  Portanto, se, realmente, se investir, anualmente, algo em torno de R$6,0 bilhões na economia cearense não há porque se duvidar que o PIB do Ceará apresente taxa de crescimento, para 2012, pelo menos da ordem de 4,0%. Isto é, se está admitindo que as políticas deletérias solapem 50,0% dos efeitos positivos do investimento. Aqui, portanto, é fundamental que a classe empreendedora não perca sua capacidade de superar as dificuldades e a sua capacidade de acreditar no futuro.

v.    E quanto às potencialidades da economia do Ceará, o que se pode dizer? Primeiro, deve-se verificar que a trajetória do sistema econômico cearense é uma trajetória decrescente. De qualquer forma, embora decrescente, ela foi quase sempre positiva, mostrando ao longo do tempo tendência ascensional.Ver o Gráfico 1, para o período 2000-2012.

 

Vale ressaltar que  o PIB cearense tem apresentado nos últimos anos taxas de crescimento superiores àquelas obtidas para o PIB  do Brasil, conforme foi mostrado no Gráfico 1.

Mas também deve ser dito que nos últimos sete trimestres, tanto  o PIB brasileiro como o PIB cearense têm apresentado comportamento descensional para a taxa de crescimento, conforme mostrado no Gráfico 2 abaixo. 


GRÁFICO 1

                CEARÁ E BRASIL – TAXAS DE CRESCIMENTO DO PIB – 2000 A 2012*


             Fontes – IBGE e IPECE                                            *2011 e 2012 - estimativas

 


    GRÁFICO 2

      CEARÁ E BRASIL - VARIAÇÃO TRIMESTRAL DO PIB –

                     1° TRI DE 2010 A 3° TRI DE 2011.


Fonte: IBGE e IPECE


De qualquer forma, fazendo-se uma análise econométrica das variáveis da série histórica dos últimos 10 anos, mesmo em modelos “naïve”, não se pode rejeitar a hipótese de manutenção de uma taxa positiva de crescimento para a economia do Ceará.. Dado, entretanto, a queda no dinamismo do crescimento estadual, é fundamental que se conheça em quais setores o Ceará possui maiores vantagens comparativas (naturais ou adquiridas). Um setor que salta aos olhos é o setor de turismo. Mas este setor está a precisar de investimentos maciços na área de infraestrutura urbana, na área de hospedaria, na área de cultura, na área de formação de mão-de-obra. Sem que o Governo estadual volte sua atenção para essas áreas, dificilmente o setor privado poderá compensar esta falta de investimentos. Portanto, há de se aproveitar o “momento da Copa” para se corrigir, se não todas, pelo menos algumas dessas falhas hoje existentes. Também não se pode negar que o Estado possui uma vocação para alguns negócios agroindustriais (aqui despontam a fruticultura e a floricultura). Muito embora tais negócios sejam muito influenciados pelas crises internacionais, haja vista que a maioria deles é voltada para o setor exportador, a mudança de hábitos induzida poderá aumentar substancialmente o mercado interno para os produtos desses segmentos.

 

ASPECTOS DA INDÚSTRIA DO ESTADO DO CEARÁ

Finalmente, pode-se inferir algo sobre o crescimento do setor industrial cearense.

No Figura 1, a seguir apresentada, mostra-se o movimento ascensional do setor industrial, ocorrido no Brasil e no Ceará, tomando-se o mês de janeiro de 2000 como base.

Também aqui tomando a série histórica dos últimos 10 anos, não se pode rejeitar a hipótese de manutenção de uma taxa positiva de crescimento. É interessante verificar que quando se muda o ano-base de comparação, para 2008, por exemplo, constata-se que o setor industrial do Ceará não só apresenta um comportamento claramente ascensional,  mas que sua taxa de crescimento supera aquela do Brasil.

 

 Mas, também fica claro pelos dados da Figura 2, que a partir de meados de 2010 que essa tendência ascensional foi revertida. Desta forma, hoje fica extremamente difícil se fazer qualquer  prognóstico sobre o comportamento futuro  do setor industrial do Estado.

 

 

 


FIGURA 1

ÍNDICE DE PRODUÇÃO FÍSICA – JAN/00 A NOV/11 – BRASIL E CEARÁ


Fonte: IBGE

FIGURA 2

ÍNDICE DE PRODUÇÃO FÍSICA – JAN/08 A NOV/11 – BRASIL E CEARÁ


Fonte: IBGE


É claro que as perspectivas de crescimento para o sistema econômico como um todo é justificativa para se fazer a ilação de crescimento para este setor. Entretanto, somente o crescimento do sistema econômico não implica necessariamente que haja crescimento para o setor industrial. Todas aquelas políticas nominadas como influentes no sistema econômico do Estado, também influem decisivamente no desenvolvimento setorial da economia.

Por outro lado, é fundamental que se conheça em quais setores o Ceará possui maiores possibilidades de crescimento na atual conjuntura.

Na Tabela 1 apresenta-se o comportamento para os 10 setores industriais pesquisados pelo IBGE para o período 2009-2011, o período pós-crise.

TABELA 1

VARIAÇÃO NA PRODUÇÃO FÍSICA POR SETOR (EM %)

 2009 A 2011

 

Setores

2009

2010

2011

CE

BR

CE

BR

CE

BR

Minerais não metálicos

1,1

-4,6

9,8

9,3

-1,5

3,7

Alimentos e bebidas

-16,1

0,3

11,5

6,1

-2,5

-0,6

Metalurgia

-29,1

-17,6

32,1

17,6

-4,5

-0,4

Vestuário

0,7

-7,9

-4,2

7,2

-11,3

-3,3

Transformação

-3,8

-7,3

9,0

10,3

-12,1

0,3

Produtos de metal

-1,8

-14,6

26,3

23,4

-20,7

2,8

Calçados e couro

7,9

-8,6

4,9

6,7

-22,2

-9,7

Têxtil

6,7

-6,4

-1,9

4,6

-24,7

-14,7

Máquinas e ap. elétricos

-19,3

-19,9

63,5

8,8

-25,4

-3,2

Petróleo e Álcool

3,3

-0,8

13,6

0,8

-25,4

0,9

Fonte: IBGE

 

 

Veja-se que nesse período os setores que foram menos afetados foram  alimentos e bebidas,  metalurgia e minerais não metálicos.

Note-se que os dois últimos são muito ligados à indústria da construção civil, que está  em plena ascensão no Ceará.

 

BRASIL versus CEARÁ – CONSIDERAÇÕES ADICIONAIS

 

Estando o Ceará inserido no Brasil, não se pode negar que o que acontecer com a economia nacional terá reflexos na economia cearense.

De acordo com vários estudos veiculados pela imprensa, muitas são s previsões para a taxa de crescimento da economia brasileira para este ano de 2012.  Desta forma, tem-se: a) o “mercado” estima que a economia brasileira não deverá crescer mais que 2,5%; b) o Governo Federal aposta em um crescimento acima de 3,0% (o Banco Central trabalha com uma taxa de 3,4%); c) o FMI, de acordo com o último World Economic Outlook (de 24 de janeiro de 2012), estima a taxa de crescimento para o PIB brasileiro em 3,0%. Assim, talvez não seja absurdo imaginar que a economia brasileira crescerá, em 2012, em torno de 2 – 3%.

E a economia do Ceará? Como já foi dito nos últimos anos a economia cearense tem crescido mais que a economia brasileira. Há algum indício que este fenômeno se modificará? Não, não há. Portanto é de se esperar que a economia do estado cresça ao derredor dos 4,0% este ano. Aliás, de acordo com o trabalho do IPECE “Perspectivas da Economia Cearense para 2012” (IPECE – Informe Nº 22, DEZEMBRO DE 2011), a estimativa do Governo estadual é que a economia do Ceará cresça 5,0% neste ano.% (o Banco Central trabalha com uma taxa de 3,4%); c) o FMI, de acordo com o último World Economic Outlook (de 24 de janeiro de 2012), estima a taxa de crescimento para o PIB brasileiro em 3,0%. Assim, talvez não seja absurdo imaginar que a economia brasileira crescerá, em 2012, em torno de 2 – 3%.

E a economia do Ceará? Como já foi dito nos últimos anos a economia cearense tem crescido mais que a economia brasileira. Há algum indício que este fenômeno se modificará? Não, não há. Portanto é de se esperar que a economia do estado cresça ao derredor dos 4,0% este ano. Aliás, de acordo com o trabalho do IPECE “Perspectivas da Economia Cearense para 2012” (IPECE – Informe Nº 22, DEZEMBRO DE 2011), a estimativa do Governo estadual é que a economia do Ceará cresça 5,0% neste ano.



    Pedro Vianna


    Sócio fundador da Econometrix e da TPJ Economistas Associados, com 40 anos de experiência na área da Ciência Econômica. Foi Diretor do Sistema BEC/BANDECE. Foi chefe do Escritório Técnico de Estudos Econômicos do Nordeste-ETENE, do BNB. Foi Vice-Presidente da Associação de Bancos de Desenvolvimento - ABDE. Foi Professor Titular em Ciência Econômica da Universidade Federal do Ceará. Foi Professor Pesquisador do Seminar Für Allgemeine Betriebswirtschaftslehre, Beschaffung und Produktpolitik, e do Institut Für Finanzwissenschaft, ambos da Universidade de Colônia (Alemanha). Especialista nas áreas de Economia Internacional e Ciência Tributária.