Quem faz o quê no Facebook?



Quem faz o quê no Facebook?

Gustavo Maia Gomes

A Deloitte, empresa internacional de consultoria, calcula que, na União Europeia, o Facebook (FB, para os íntimos) e as empresas dele dependentes respondem por 232 mil empregos e por 15,3 bilhões de euros (R$ 35 bilhões) em valor anualmente produzido. Nos Estados Unidos, a Universidade de Maryland estima que a rede social criou 182 mil empregos e faz pagamentos anuais de 12,2 bilhões de dólares (R$ 21,6 bilhões) em salários. Para um serviço que ainda não tem dez anos de existência, são números impressionantes.

Todos concordam quanto à importância do Facebook, mas sua natureza ainda é mal compreendida. Para saber como, exatamente, ele impacta a sociedade e a economia, deveríamos começar conhecendo melhor os usuários do serviço, os grupos em que se dividem, o que fazem na rede social e o que dela esperam. Estatísticas demográficas, sociais e econômicas a este respeito começam a ser produzidas e estão disponíveis na Internet. Mas encontrei pouca informação sobre o que os usuários fazem e o que esperam receber ao digitar comentários, curtir ou comentar posts. Proponho, então, lançar algumas hipóteses a partir, sobretudo, de minha experiência.

Sendo eu um recém-chegado a esse mundo, a classificação funcional que apresento a seguir, assim como a descrição das características principais de cada grupo de usuários, é extremamente preliminar. Ficarei grato aos leitores que sugerirem aperfeiçoamentos.

1.    Auto-ajuda

Uma parte das pessoas usa o Facebook para publicar pensamentos, máximas e palavras de ordem, quase sempre, alheios. A oferta de frases feitas já é abundante; vários sites na internet produzem material dessa natureza, frequentemente, adornado com belas ilustrações ou fotos. Proponho chamar este o “Grupo da Auto-ajuda”.

Seus integrantes não creem que irão mudar o mundo, mas, por via das dúvidas, dão sua contribuição. Mais importante é que eles se consideram recompensados ao colher comentários (sempre numerosos e, invariavelmente, favoráveis) de seus “amigos”. Podem, aos poucos, firmar uma reputação de pessoas sábias, responsáveis, prudentes, inteligentes, num círculo muito maior do que seriam capazes de formar em contatos diretos, não virtuais.

2.    Ka-ka-ka

A turma do Ka-ka-ka parece ser, em regra, composta por adolescentes. Eles usam o FB como um meio de comunicação, mas se conhecem e interagem também fora da internet. Geralmente, os assuntos são mundanos e se referem aos interesses e aspirações do dia-a-dia dessas pessoas. A recompensa pela participação na rede está neste dar e receber informações valiosas de amigos e “amigos”.

O grupo criou um dialeto próprio, com novas palavras [kkk, uuu, hehehe...] e símbolos especiais [ (=: e outros]. Mesmo quando os participantes da turma têm educação formal, ela pouco influencia sua maneira de falar. Não há mais pontuação, concordância ou emprego adequado de maiúsculas e minúsculas. É a facilidade de digitação que determina a linguagem: para escrever uuuuuuuuuuuu, por exemplo, basta apertar uma tecla e mantê-la pressionada. Machado de Assis não poderia querer mais.

3.    Fórum de intelectuais

Algumas pessoas (claramente, sou uma delas) usam o Facebook como um fórum de intelectuais. Postam artigos e peças de ficção literária, fazem críticas cinematográficas, expressam opiniões políticas, leem jornais, revistas e blogs selecionados. Já fazíamos isso antes via jornais, revistas, diários íntimos, etc, mas de forma menos eficiente. Hoje, mesmo quando publicamos alguma coisa em mídias tradicionais, achamos importante oferecer um link na rede social, por onde é mais fácil e provável receber comentários, aferir repercussões.

Em última análise, temos motivações semelhantes às do grupo da auto-ajuda: adoramos sustentar uma conversa que julgamos inteligente com pessoas a quem respeitamos e, sobretudo, nos delicia receber comentários favoráveis às nossas postagens. Infelizmente, com frequência, somos considerados animais estranhos, ou indivíduos pernósticos, pelos que integram os demais grupos. Uuu, kkk.

4.    Colunáveis

Há aqueles – talvez, a maioria dos usuários do Facebook – que publicam regularmente sua vida pessoal e familiar, documentada em infindável quantidade de fotos. O serviço é gratuito, aberto a todos, e as imagens são reproduzidas em alta qualidade. Como esta democratização de oportunidades só passou a existir muito recentemente, é natural que ainda estejamos tentando entender o que ela significa.

Uma total renúncia à privacidade? De certa forma, sim. Mas, será algo novo? Colunas sociais em jornais sempre fizeram isso, publicar fotos e se imiscuir na vida privada dos notáveis. Só que nem todo mundo podia sair nas colunas. Agora, pode. A recompensa obtida pelos integrantes do grupo é que, de repente, todos eles se tornaram “colunáveis”. Não é que, lamentavelmente, as pessoas tenham perdido a privacidade, mas sim que, felizmente, isso aconteceu.

5.    Noticiosos

Jornalistas comunicam seus blogs pessoais com o Facebook; jornais e revistas tradicionalmente editadas em papel, também. Em conjunto, podem ser considerados personagens no mundo das redes sociais: os noticiosos. Os jornalistas, considerados individualmente, em particular, interagem muito com os intelectuais. E vice-versa.

Para quem vive de ser lido, o Facebook proporciona uma oportunidade preciosa, imperdível. A recompensa desse povo é esta: poder apresentar a si mesmos, aos seus chefes e eventuais patrocinadores atestados de que estão sendo notados pelo resto da humanidade. E com isso, ganhar melhor salário ou atrair mais anunciantes para seu blog pessoal.

6.    Políticos e empresas

Também há grupos de políticos e de empresas. Estão juntos porque ambos vivem da propaganda. Dos políticos, alguns noticiam cada passo que dão (“agora estou no mercado, ouvindo o povo”...), outros informam o estado atual de suas ideias (“sempre fui a favor de não ser contra nada”...) Um deles, de projeção nacional, foi pioneiro em outra rede, o Twitter, que bem poderia ser chamada a reinvenção do telégrafo. Se tudo isso der votos, melhor; se não, pelo menos, é de graça.

Aparentemente, é uma redundância, pois essas coisas já eram feitas nos sites tradicionais, mas as empresas descobriram as redes sociais como mais um canal de propaganda e comunicação com seus clientes. Como podem montar suas páginas gratuitamente no Facebook, está ainda mais explicada sua presença ali.

7.    Interesses específicos

As redes sociais também têm sido utilizadas por grupos com interesses específicos: “Adoro cachaça”, “Fanzocas do Justin Bieber”... Os exemplos mais impactantes foram proporcionados pela chamada Primavera Árabe (que derrubou vários ditadores, ora sendo substituídos por outros), mas houve muitos casos anteriores de grandes mobilizações organizadas e coordenadas via Facebook.

O artigo de Tom Hayes, citado nas referências, chama a atenção para uma das muitas e extraordinárias implicações dessa circunstância inteiramente nova: os sindicatos de trabalhadores podem se tornar obsoletos. Já é muito mais prático e eficiente organizar greves via redes sociais do que pelos meios clássicos – e os líderes produzidos pelo Facebook não são, necessariamente, os mesmos que ganhariam as eleições sindicais.

8.    Uma nota final

Muitos outros grupos devem existir. Espero que os leitores me ajudem a identificá-los. Afinal, mobilizar trabalho alheio a custo zero é uma das grandes possibilidades do Facebook. Supera os sonhos dos mais ardentes escravocratas.

Escravos precisam ser alimentados: “amigos”, não.

 

 

REFERÊNCIAS (Para quem quiser ir às fontes)

Delloite, “Measuring Facebook´s economic impact in Europe”, January 2012, Link: http://www.deloitte.com/view/en_GB/uk/industries/tmt/media-industry/df1889a865f05310VgnVCM2000001b56f00aRCRD.htm

Center for Digital Innovation, Technology and Strategy (University of Maryland), “The Facebook App Economy”, September 2011. Link: http://www.rhsmith.umd.edu/digits/pdfs_docs/research/2011/AppEconomyImpact091911.pdf

Tom Hayes, “Will Facebook Replace Labor Unions?” February 2011. Link: http://www.huffingtonpost.com/tom-hayes/will-facebook-replace-lab_b_828900.html

Facebook Statistics by country. Link: http://www.socialbakers.com/facebook-statistics/

Brazil Facebook Statistics. Link: http://www.socialbakers.com/facebook-statistics/brazil

 

Este artigo será publicado, simultaneamente, em http://www.blogdatametrica.com.br, http://www.econometrix.com.br e http://www.gustavomaiagomes.blogspot.com (28/02/2012)



    Gustavo Maia Gomes


    Phd em Economia (University of Illinois, USA, 1985); Visiting Scholar (Cambridge University, England, 1987/88), Diretor do Ipea (Brasília, 1995-2003); Professor de economia da Universidade Federal de Pernambuco (1976-2009), Secretário de Planejamento de Pernambuco (1991), autor de livros e artigos; economista e escritor.