Espelho, espelho meu. Existe alguém mais Pinóquio do que eu?



Espelho, espelho meu. Existe alguém mais Pinóquio do que eu?

Gustavo Maia Gomes

Uma intrigante peça teatral está sendo encenada no Brasil. Contrariamente às telenovelas, ela é realista e terá desfecho rápido. Os dois primeiros atos já foram encenados. Aguarda-se, agora, o último.

PRIMEIRO ATO

Na edição distribuída sábado, 26 de maio, a revista Veja publica o seguinte:

Há um mês, o ministro Gilmar Mendes, do STF, foi convidado para uma conversa com Lula. O encontro foi realizado no escritório do ex-ministro [do STF, da Defesa e da Justiça] Nelson Jobim. Depois de algumas amenidades, Lula disse a Gilmar: “É inconveniente julgar esse processo [do mensalão] agora”.

A matéria continua:

Depois de afirmar que detém o controle político da CPI do Cachoeira, Lula ofereceu proteção a Gilmar Mendes, dizendo que ele não teria motivo para preocupação com as investigações. O recado foi decodificado. Se Gilmar aceitasse ajudar os mensaleiros, ele seria blindado na CPI.

A reação do assediado corrobora essa interpretação:

“Fiquei perplexo com o comportamento e as insinuações despropositadas do presidente Lula”, disse Gilmar Mendes a Veja.

Cai o pano.

SEGUNDO ATO

Em um dos blogs do jornal O Globo, às 16:20 do mesmo dia 26, Jorge Bastos Moreno postou a seguinte informação sobre o assunto:

Acabo de falar com o anfitrião. Jobim confirma o encontro, mas nega seu conteúdo. [Ele disse:] “não houve nada disso do que a Veja, segundo me informaram, está publicando”.

Se a trapalhada terminasse aqui, seria apenas um caso de declarações falsamente atribuídas (pela Veja) a Gilmar Mendes. Mas Jorge Moreno acrescentou outra informação:

Amiga minha, de Diamantino (MT), terra de Gilmar Mendes, a meu pedido, localiza Gilmar. E se atreve a perguntar se era tudo verdade: “Claro que é! Eu mesmo confirmei tudo à revista”.

Cai o pano; aumentam as emoções.

TERCEIRO ATO

Este ainda não começou, mas os espectadores esperam um final infeliz, pois, de uma das seguintes possibilidades, o autor dificilmente poderá fugir:

HIPÓTESE 1: A Veja mentiu sobre as declarações de Gilmar Mendes. Mas, então, (a) ou Jorge Moreno também mentiu, ao atribuir ao ministro do STF a confirmação do que a revista publicou, ou (b) Gilmar Mendes faltou com a verdade, ao confirmar que dissera o que não tinha dito. Excluída a última possibilidade (forte demais, mesmo para o contexto surrealista da peça), neste cenário, ficariam bem Nelson Jobim, Gilmar Mendes e Lula. Sairiam como mentirosos a Veja e o blogueiro de O Globo.

HIPÓTESE 2: A Veja reproduziu corretamente as declarações de Gilmar Mendes, mas ele desmente isso, depois de tê-lo confirmado. Não teriam problemas a revista e o repórter Jorge Moreno. Já Gilmar Mendes e Nelson Jobim passariam a ser mentirosos e Lula, para dizer o mínimo, teria sido flagrado em uma manobra não-republicana.

HIPÓTESE 3: A Veja disse a verdade e Gilmar Mendes confirma isso diretamente. Salvar-se-iam-se a revista, o repórter Jorge Bastos Moreno e Gilmar Mendes. Nelson Jobim passaria a ser o mentiroso e Lula seria culpado de tentar direcionar o comportamento de um ministro do STF usando de ameaças nada sutis.

O QUE DIRÁ A CRÍTICA?

Nenhum desses cenários é agradável. No primeiro, seria péssimo saber que nossa revista de maior circulação publica como fatos coisas que nunca existiram. No segundo, seria intolerável admitir que um ministro do Supremo Tribunal Federal e um ex-ministro da Justiça são mentirosos e que um ex-presidente da República foi flagrado em comportamento criminoso. No terceiro cenário, a Veja e Gilmar Mendes não teriam problemas, porém Nelson Jobim e Lula ficariam muito mal.

Mas, quem sabe, o autor guarde em segredo uma saída bem brasileira para o drama: o PT negocia com o PSDB (“Perillo é amigo do Cascatinha; Cachoeira, ele nunca viu”), que negocia com o PMDB (“Cabral, tu és nosso e nós somos teu”), que negocia com o PQP (frase impublicável), que negocia com o PT (“Agnelo, dorme em paz”) – e não se fala mais do assunto. Lula, Gilmar e Jobim cada um fica na sua, fingindo que nada aconteceu. E o público sai resignado: mais uma vez, terá feito o papel de bobo.

REFERÊNCIAS

As citações de Veja estão em Rodrigo Rangel e Otávio Cabral, “Um ex defende seu legado”. Veja n. 2271, 30 de maio de 2012, págs. 62-67. As citações de Jorge Bastos Moreno estão em http://oglobo.globo.com/pais/moreno/posts/2012/05/26/um-fato-duas-versoes-gilmar-jobim-447411.asp

Este artigo está sendo publicado, simultaneamente, em

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(28/05/2012)



    Gustavo Maia Gomes


    Phd em Economia (University of Illinois, USA, 1985); Visiting Scholar (Cambridge University, England, 1987/88), Diretor do Ipea (Brasília, 1995-2003); Professor de economia da Universidade Federal de Pernambuco (1976-2009), Secretário de Planejamento de Pernambuco (1991), autor de livros e artigos; economista e escritor.