Agora o Vilão é o ETANOL!



AGORA O VILÃO É O ETANOL

PEDRO JORGE RAMOS VIANNA

Ao lermos o noticiário econômico do Brasil, a “prima dona” da vez é o processo inflacionário recente vivenciado pelo País. De fato, mercado e autoridades monetárias ainda não se cansaram de vir a público ou explicar o nível de inflação ou fazer suas previsões. Naturalmente, as autoridades monetárias não abrem mão de garantir que a “meta inflacionária” para 2011 (4,50% , com viés de + 2 ou – 2%, podendo chegar, portanto, a 6,50%).

Com a divulgação do índice de inflação de abril, este debate se acirrou. O índice foi de 0.77%. Dos nove itens (alimentação e bebidas, habitação, artigos de residência, vestuário, transportes, saúde e cuidados pessoais, despesas pessoais, educação e comunicação) que compõem a “cesta” de produtos que entra no cálculo da inflação, o item “transportes” respondeu por 0,30 pontos percentuais. Este foi o “mote” para se escolher o etanol como o vilão da estória. Mas será isto verdade?

Vamos “dissecar” um pouco o índice de inflação (IPC). Na Tabela de ponderação, utilizada para se medir a variação do IPC tem-se que dos nove itens considerados, 4 deles (alimentação, habitação, transportes e saúde e cuidados pessoais) são responsáveis por 66,72% da variação do IPC. O item “transportes” é o segundo, mais importante (20,76% de peso) deles.

Mas, dentro do item “transportes” (que é subdividido em três itens: transporte público, veículo próprio e combustíveis), combustíveis contribuem com 5,66 pontos percentuais dos 20,76%. .E dentro do item “combustíveis”, o etanol responde por 0,44 pontos percentuais.

Portanto, a contribuição para o índice inflacionário do etanol é mínima. Mesmo considerando que o preço do etanol aumentou substancialmente (de R$0,9078 para R$1,6323 em 25/03/2011, atingindo em 06/05/2011, R$1,0651). Tomando o maior preço alcançado e dividindo-o sobre o preço de dezembro de 2010, constatamos que houve um aumento de praticamente 80,0%. É um grande aumento, sem dúvida. Mas tomando-se a ponderação que o etanol tem no item “transporte” e este no IPC, tomar o etanol como vilão da inflação é um pouco demais.

Façamos um exercício bem simples. Imaginemos que em um determinado mês nenhum dos bens que entram na composição do IPC tenha sofrido aumento, exceto o etanol. E este tenha aumentado em 80,0%. Qual o resultado final sobre o IPC? Dado que o etanol responde por 0,44% do IPC, este aumento de 80,0% faria com que sua participação chegasse a 0,792%. Portanto, se o IPC fosse igual a 100, ele passaria para 100,792. Ou seja, se somente o etanol subisse (por hipótese, 80,0%), o aumento total no IPC seria de menos de 1,0%.

Portanto, o etanol não é o vilão da inflação!

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    Pedro Vianna


    Sócio fundador da Econometrix e da TPJ Economistas Associados, com 40 anos de experiência na área da Ciência Econômica. Foi Diretor do Sistema BEC/BANDECE. Foi chefe do Escritório Técnico de Estudos Econômicos do Nordeste-ETENE, do BNB. Foi Vice-Presidente da Associação de Bancos de Desenvolvimento - ABDE. Foi Professor Titular em Ciência Econômica da Universidade Federal do Ceará. Foi Professor Pesquisador do Seminar Für Allgemeine Betriebswirtschaftslehre, Beschaffung und Produktpolitik, e do Institut Für Finanzwissenschaft, ambos da Universidade de Colônia (Alemanha). Especialista nas áreas de Economia Internacional e Ciência Tributária.